QUEBRANDO O SALTO


 

CONEXÃO DIRETA COM A ILHA MATERNÁLIA

 

 

 

 

 

Depois de passar um tempo dando as caras (e a barriga) lá no blog Barrigudos, do UOL, há um blog novo no ar, ou melhor, no mar. É o Ilha Maternália, e o endereço é este aqui: http://ilhamaternalia.blogspot.com.br/, Venha navegar conosco! Bons ventos a todos,

 

Maria Rita.

 

 

 



Escrito por Maria Rita Barbi às 00h38
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BLOG BARRIGUDOS ESTREIA NO UOL


 

Queridos leitores,

A partir de hoje também darei as caras, ou melhor, a barriga, no blog Barrigudos.

Eu e Torero contaremos as aventuras e desventuras de um casal à espera do primeiro filho.

O endereço é este aqui: http://barrigudos.blogosfera.uol.com.br/

Beijos grávidos,

Maria Rita.

 

 

  Maria Rita Barbi fez trekking na Patagônia, andou pelo deserto no Marrocos, subiu o Pico das Agulhas Negras, dançou com índios na Amazônia, escalou dunas nos Lençóis Maranhenses e quase virou piloto de planador. Mas, agora, se prepara para sua mais gigantesca aventura: ser mãe. Também continuará escrevendo no Quebrando o Salto, entre um e outro sapatinho de bebê.



Escrito por Maria Rita Barbi às 16h18
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O TEXTO QUE FOI EXPULSO DO LIVRO

 

Ano passado participei do concurso “Crônica e Literatura”, para autores novatos, patrocinado por uma editora mineira.

O tema da edição era “O medo” e me deu um medo danado de participar, porque eu nunca tinha entrado em uma competição literária.

Medo de quê? De quem? De onde? Do escuro, bruxa, sapo e barata? Medo de dirigir, voar, andar de bicicleta, cair, ficar sozinho e engordar? Medo da morte, de dizer a verdade, de dentista, do chefe?

Dá muito medo de errar quando a gente tem que falar sobre um assunto tão complexo quanto o medo.

Como na época do concurso eu estava no meio da postagem do “Isabelita, Bela, Bel” para este blog, misturei algumas ideias do texto sobre minha vó com uma pitada de medo.

O resultado? A crônica ficou em oitavo lugar.

A editora revelou que publicaria um livro com as 85 crônicas aprovadas. Mas os sortudos deveriam pagar para serem incluídos na coletânea. E também deveriam providenciar a revisão do texto. Cada um por si. Porque a editora não gastaria com isso. Nem com as demais despesas que fazem parte de uma publicação.

Pelas minhas contas, eu teria que desembolsar o equivalente a um mês de almoço e jantar para me tornar uma autora publicada. Diferente das celebridades, eu não conseguiria matar a fome com a fama.

Sempre pensei que o dinheiro fluísse das editoras para os autores e não o inverso.

Fora isso, uma série de e-mails truncados, enviados pelos organizadores do concurso aos aprovados, revelavam vários errros groceiros de portuguêz.  Quando questionados sobre o montante para a publicação, responderam na mais fina linguagem: “Somente os 3 primeiros classificados de cada categoria é isento de pagamento.” A falta de organização de ideias e tato nas mensagens também contribuiu para a formação de uma imagem que em nada condiz com o esperado de uma casa das letras.

O lançamento do livro ocorrerá durante este mês de fevereiro. Mas minha crônica não estará por lá. Decidi não fazer a contribuição monetária para me incluir. Seria mais ou menos como comprar um diploma de uma faculdade duvidosa.

Assim, coloco aqui, de graça como salto quebrado, o texto que foi expulso do livro:

 

 

A VÓ E O MEDO

Quando eu era pequena, tinha medo que minha avó morresse. Não que eu entendesse direito o significado da morte, mas a ideia de ficar sem minha segunda mãe me entristecia. 

 

A vida com a Vó Bel era pura diversão, regada à comilança. Docinhos de nozes, paçoquinha, bolo de fubá, sorvetão, raspadinha e leite condensado. Ela até me deixava rabiscar a parede da cozinha, a lápis, desde que eu apagasse tudo depois.

 

Emprestava seus ecologicamente-incorretos casacos de pele puídos, junto com colares de pérolas falsas, para compor minhas fantasias de rainhas e princesas.

E, principalmente, incentivava meu gosto por ouvir, contar e escrever histórias.

 

Eu nadava, corria, pulava, comia pitanga bichada e me sujava de terra, sob os olhares faceiros de Dona Izabel, que parecia se divertir mais do que eu com minhas travessuras.

 

Ela me ajudou a superar o medo do escuro, de lagartixa e de um vizinho desdentado, que vendia dentes de alho, de porta em porta.  Mas vivia com medo que minha avó morresse. Porque ela era uma almofada de afeto, onde eu podia recostar e descansar.

 

Então, rezava do meu jeito para Lineu, o anjo-da-guarda cuja-língua- o-gato-comeu, pedindo que ela ficasse comigo por muitos e muitos anos.

 

Deu certo.

 

Vó Bel chegou lúcida à minha adolescência e, apesar das rugas de maracujá, da cabeleira branca e da saúde abalada, ainda mantinha ares de majestade.

Tive ainda mais medo que minha avó morresse. Porque foi nessa época que percebi seu carisma, que movia multidões. Sua inteligência, nas discussões sobre história e literatura. Sua vaidade, já que não vivia sem batom, nem blush.  Ou ainda, sua elegância. Pois, apesar de nunca ter sido uma mulher notadamente bela, vestia-se bem e pregava que “cada mulher faz seu encanto” e “basta acreditar nele para que os outros acreditem também”.

 

Assim, alguns fãs orbitavam ao seu redor, à espera de uma provável viuvez. Incluindo um octogenário manco, que deixava bilhetes esperançosos no tapetinho de sua porta, para desespero do meu avô.

 

Sofria com medo que minha avó morresse. Porque ela me aceitava na íntegra, apesar das chatices, breguices, esquisitices e tantos outros “ices” da minha idade, aquietando meu medo de rejeição.

 

Vó Bel falava de sexo com a naturalidade de quem comenta uma partida de futebol, o que foi útil no desabrochar dos meus primeiros amores.  Mas foi também na adolescência que conheci seu preconceito contra a ignorância, que logo perdoei, pois entendi que as pessoas, tal como os deuses do Olimpo, possuem seus defeitos.

 

Temia me tornar uma mulher apática, desinteressante, comum e distante da figura fascinante de Dona Izabel.  Então, me preparei para voo solo.

 

A vida adulta diminuiu meu convívio com ela, que parecia mais mirrada a cada encontro. E a falta de vitalidade só aumentou ao longo dos anos, para meu lamento, porque, no fundo, ainda sentia medo que minha avó morresse.

 

Em nossa última conversa, uma Izabel centenária, ainda consciente, confessou que estava em paz com seus medos. Concluiu que, na vida, eles mais a impulsionaram do que limitaram. E revelou que seu maior temor, o de ser esquecida, havia sumido, porque ela finalmente podia se ver em mim.

 

Depois desse dia, deixei de temer a morte de minha avó. E, estranhamente, passei a ter medo de envelhecer.

 

  Maria Rita Barbi já foi mais medrosa, é a favor do pagamento de direitos autorais e, quando escreve para o “Quebrando o Salto”, publica geralmente às sextas-feiras. Ou sábados...



Escrito por Maria Rita Barbi às 15h42
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COMEÇAR DE NOVO*

(*baseado em fato real)

Durante a tarde de Ano Novo, meu amigo Carlos recebeu 65 kg de carne, caídos diretamente do céu. Maná dos deuses? Não. Foi Mané dos Santos, um suicida de 30 anos, que decidiu fazer do primeiro dia do ano o seu último.

Atirando-se do quarto andar de um shopping paulistano, Mané atingiu Carlos nas costas, no momento em que este se preparava para tomar um pingado.

A probabilidade de ser atingido por um raio é de 1 em 576 mil. A de ser canonizado é de 1 em 20 milhões. A de acertar na megasena é de 1 em 30 milhões. A de ser acertado por um suicida em queda livre: ninguém calculou ainda.

Mas Carlos conseguiu uma façanha maior do que se tornar um eletrizado santo megamilionário: sobreviveu ao acidente, sem nenhum arranhão.

Alvejado como uma pulga que recebe uma chinelada, não quebrou um osso sequer e ainda impediu o salto de Mané para a morte. “Na hora, senti como se eu tivesse partido ao meio. Mas no final, não havia sangue ou pedaços destroncados, eu não tinha nada.“

Parentes e amigos se perguntam se ele tem o corpo fechado. “Tenho o corpo inchado”, brinca Carlos, enquanto apalpa com carinho a barriguinha discreta, cultivada com pizza e fritas, e que virou seu air bag.

Grande sorte, obra do acaso, força maior ou destino? Não importa.

Mais do que um sobrevivente, Carlos se tornou um herói, mesmo que por acaso.

Os mais pessimistas podem até dizer que ele foi uma pedra no caminho de Mané, interrompendo brutalmente os planos de viagem do suicida para o além. Mas há algo de nobre no salvamento de uma vida, mesmo de forma involuntária.

A história de Carlos será muitas vezes contada por mim e certamente desacreditada por muitos.

Porém, suicídios em shoppings e pontos turísticos durante datas festivas são mais comuns do que imaginamos, apesar da cobertura nula da mídia. Os bandidos do tráfego e os ladrões de bancos são mais pop e dão mais ibope do que pessoas que colocam em risco suas próprias vidas.

Hoje, Carlos se diz renascido. Se em outras épocas de vida já se viu deprimido e desanimado, agora está todo alto astral: “Estou mais atento, saboreando as pequenas coisas da vida”, diz o herói enquanto come um mini quindim.

Para ele, resta começar de novo. E completa: “Nunca mais andarei cabisbaixo”.

 Maria Rita Barbi aproveitou o Reveillón, caiu de costas ao ouvir a história de Carlos e,  como resolução de Ano Novo, escreverá mais vezes no "Quebrando o Salto" em 2012.



Escrito por Maria Rita Barbi às 14h19
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“TODA MULHER VIRA BRUXA”

Arrogante. Inteligente. Polêmica. Surpreendente. Uma feiticeira ao mesmo tempo tradicional e contemporânea. A Bruxa Má da Branca de Neve esteve solta pela metrópole paulistana nas últimas semanas. Em entrevista exclusiva para o Quebrando o Salto, a personagem mais detestada dos contos de fada faz revelações inusitadas. E você vai entender com quantas maçãs se faz uma bruxa.

QoS: Por que você não gosta da Branca de Neve?

Bruxa: A Branca é uma chata. É bobinha, toda certinha, toda nhenhenhém. Eu não aguento gente assim. É muita ingenuidade. Pensa bem: como uma mulher que mora com 7 caras, lava, passa, cozinha e remenda cuecas está sempre feliz? Pra cima de mim? Me poupe...

QoS: Você se considera muito má para uma bruxa?

Bruxa: Sou má, sim, mas quem não é? Pior que ser uma bruxa má é ser uma má bruxa. Daquelas que atrasam a entrega de poções, trocam sapo por lebre e faltam nas convenções anuais da classe enfeitiçadora.

 

 

 

QoS: Como foi o seu casamento com o rei?

Bruxa: Meu casamento foi breve. Ele era um glutão e adorava torta de maçã. Mas aquela diabetes era uma diaba e o matou. Ele deixou uma filha tagarela (que falava até com os bichos), um reino quebrado e muitas dívidas. Mal dava para eu pagar as contas básicas do castelo. Tive que fazer mágica.

QoS: Mas hoje você é rica.

Bruxa: Minha fortuna veio com umas ações que eu comprei há uns 30 anos, da empresa da maçã. O Steve foi um grande mago (pausa para enxugar uma lágrima no canto do olho).

QoS: Qual o seu tipo preferido de homem? Caçador ou Príncipe?

Bruxa: Caçador, claro. Rústico, direto e com boa pontaria. A gente sabe como lidar com um tipo assim. Já príncipe... A maioria é sapo, com feitiço às avessas. E disso eu entendo.

QoS: Como anda sua relação com o espelho mágico?

Bruxa: Eu e o Éverson (o espelho) vivemos uma relação eterna de amor e ódio. Quem é que gosta de ver certas verdades esfregadas na cara todos os dias? Ainda mais alguém que já passou dos 500 (anos), como eu. Quando eu faço botox, lifting e maquiagem completa, ele me acha linda. Mas sei que ele aprendeu a mentir.

QoS: Quem você admira no mundo da magia?

Bruxa: Merlin, Dumbledore, Morgana e o Mestre dos Magos. Também tem o Spielberg, George Lucas e trupe, porque o que eles fazem na Industrial Light and Magic é pura ilusão. E, claro, admiro muito o Walt (Disney). Ele me fez nascer para o cinema.

QoS: Por que você só se veste de preto? É a cor do mal?

Bruxa: Não, bobinha! Já vi que você não entende nada de moda. O preto emagrece, é sexy, é luxo! Audrey Hepburn abusou do pretinho básico e veja o que aconteceu... Ficou quase tão famosa quanto eu!

QoS: Beleza é fundamental para as mulheres?

Bruxa: Sempre. Mas uma mulher não pode depender só disso. Ela precisa de algo mais para continuar atraente quando os sinais da idade chegarem. Como ter uma conta bancária recheada. Ou saber cozinhar. Ou ter muitos diplomas. Eu tenho tudo isso. Sou zilionária, especialista em doces de maçã e mês que vem termino a terceira pós-graduação em Maldades Maldosas, com a Bruxa Má do Oeste.

QoS: Como você cuida da sua beleza no dia-a-dia?

Bruxa: Prefiro minhas poções mágicas aos cremes. Na verdade, faço de tudo, experimento todos os procedimentos possíveis. Mas ultimamente acho que nenhuma fórmula faz uma mulher se sentir tão bela e poderosa quanto uma coleção de sapatos. Odeio quando quebra um salto!

QoS: Quais são seus planos para o futuro?

Bruxa: Quero lançar uma coleção chamada Contos de Bruxas. Chega de contos de fadas! Elas só fazem uma ponta nas histórias e levam toda a fama? É injusto! E começarei pelo meu livro. Afinal, a minha maçã é uma das 5 que mudaram o mundo, depois das maçãs de Adão, de Newton, do Steve Jobs e dos Beatles.

QoS: Alguma recomendação para as mulheres?

Bruxa: Vão treinando, queridas. Porque mais cedo ou mais tarde, toda mulher vira bruxa. Hahahahaha (risada malévola).

 

 

    Maria Rita Barbi é branca como a neve, mas prefere ser a bruxa má. Enquanto não se decide, escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às sextas-feiras. 

 

 



Escrito por Maria Rita Barbi às 17h47
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ADEUS, JUBI!

Esta semana perdi uma amiga. Não falo de uma amiga qualquer, mas da melhor amiga da mulher.

Aqueles que não gostam de cachorro podem até latir em protesto, mas dedicarei as próximas linhas para a Jubi, uma grande Yorkshire. Trinta e cinco centímetros, 3,8 quilos, latido forte e orelhas caídas.

Jubinha era simpática e sociável. Recebia a todos na porta de casa com ar esfuziante, fungadas, latidos, pulos e muito rabo abanado. Só sossegava depois de ganhar um agrado, um reconhecimento, uma atenção.

As coisas da vida que Jujuba mais gostava podiam ser descritas em ABCDE:

- Argola, de borracha, que se tornou a chupeta constante, carregada para cima e para baixo;

- Brinquedo, uma palavra com o mesmo significado de Bolinha, com quem ela adorava brincar;

- Correr, no corredor do apartamento, atrás de seus brinquedos;

- Dormir, de preferência recostada em um humano;

- Edredon, ou qualquer coberta fofinha e macia, onde ela se chafurdava feliz.

Nunca recusou um pratinho de frango com cenoura e tinha mania de limpeza: ao primeiro sinal de sujeira, se plantava na porta do banheiro, à espera de uma alma caridosa que lhe desse um banho.

Jubi era parte da família. Puxou o cabelo louro da minha mãe e os pelos grisalhos do meu pai. Começou como minha irmã mais nova e terminou como a mais velha, já que seus 13 anos caninos equivaleriam a 90 anos humanos.

Quando alcei voo solo, a deliberação familiar foi clara: “Só uma das duas sai de casa.” Jubilú ficou com meus pais, com meu edredon e com todo franguinho com cenoura que minha mãe carinhosamente pudesse cozinhar. Ela foi a maior companheira dos meus pais desde então.

Depois de algum tempo, Jubi passou a me receber menos como família e mais como visita. Confesso que me senti um tanto rejeitada e fiquei até com ciúmes. Mas sua atitude carinhosa redimiu qualquer rancor.

Nunca soube ao certo se Jujuba era feliz e realizada como cachorro, mas ela sabia direitinho o dia em que eu não me sentia lá muito gente. Então, pulava no meu colo, se aninhava e ficava quieta, só no aconchego. Por vezes dormia, roncava e soltava puns silenciosos e possantes.

Assim como eu, Jubi não gostava de despedidas. Preferia todos por perto, a família reunida, como no almoço de domingo. Neste fim de semana, porém, não precisarei dividir meu frango com cenoura. Mas bem que eu gostaria.

 

    Maria Rita Barbi ficou triste pra cachorro e escreve no “Quebrando o Salto” às sextas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 15h26
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O QUE AS MULHERES PENSAM

Dia desses, cultivando o ócio criativo, tive a ideia para uma engenhoca que acreditei ser revolucionária. A finalidade? Capturar o pensamento feminino.

Não precisei de muito para desenvolver o equipamento: 1 insight, 2 livros de Freud, 3 modelos matemáticos, 5 idas ao ferro velho, 8 livros do Stephen Hawking, 13 artigos sobre teoria das ondas, 21 episódios do “The Big Bang Theory”, e após 34 dias de intensa produção tecnológica, estava pronto o protótipo.

Alguns amigos, sem um tico de pudor, juraram que o meu TECO - “Terminal Escutômetro do Cérebro e suas Ondas“- mais parecia um microfone numa vara de pescar, acoplado a um gravador.

Nem liguei para os deboches. Afinal, revelar ao mundo, com provas científicas, o que as mulheres pensam, poderia render uma indicação para o Nobel.

Mas era preciso testar a validade do TECO através de um experimento de campo.

Assim, fui parar num dos principais cruzamentos da megalópole de São Paulo: Paulista com Augusta. Tentei posicionar o TECO várias vezes em cima da cabeça das mulheres que passavam pela calçada, a fim de ouvir seus pensamentos. Mas não tive sucesso.

A maioria se assustava, muitas corriam e algumas avançavam para me estapear. Como primeira observação científica, anotei que as mulheres, via de regra, não gostam de objetos pontiagudos rondando suas cabeças.

Foi então que discretamente mirei o TECO para uma motociclista distraída, parada no farol. Ela não tinha para onde correr, nem como me agredir. E, para minha surpresa, a engenhoca começou a funcionar, gravando as seguintes linhas:

“Acho que deixei o forno ligado... Preciso comprar comida pra cachorro. Pro cachorro também, aquele animal... Acho que aquele bigodudo da pick-up está olhando pra mim. Magina. Logo hoje que estou um bagulho. Péra. Ele acenou e fez um sinal com a mão e agora - o que é aquilo que ele tem na língua? Credo! É um porcão, mesmo. Abre logo, farol!... Será que o Dudu percebeu que eu fingi a dor de cabeça de ontem? Pra onde vai essa relação?... Papel higiênico. Não posso esquecer de comprar papel higiênico. O guardanapo também já tá acabando... Que fome! Ainda bem que escondi uma barra de chocolate na bolsa.... Compro ou não aquela bolsa da liquidação?... Maldito cartão de crédito estourado! Vou ter que dar cheques? Odeio cheques... Ai, esqueci de desmarcar a aula de inglês. Aquela Lady Jane é uma bruxa. Que raiva daquela mulher, viu! Pegar no meu pé por causa do verbo “Can”. Quem ela pensa que é?... Vai, farol!... Acorda, dona pedestre! A rua não é só sua. E que botas ridículas dessa piriguete. Parece o pé do Chewbacca... Tô precisando urgente me depilar. Pra que tanto pêlo? Por que crescem tão rápido?... Por que a bolsa da liquidação não sai da minha cabeça?... Ai, não faço mais nada pra mim, não tenho mais tempo, estou com tanta pressa e essa droga de farol não abre. Abriu!”

Parei a motociclista para validar minha coleta de dados. Mas Dorotéia (nome fictício) negou tudo. Disse que não está em crise com o namorado, não troca papel higiênico por guardanapo, não está peluda, não é chocólatra, não levou cantada de bigodudo, não odeia sua professora de inglês e muito menos compra bolsa em liquidação.

Tomada por uma fúria em duas rodas, como se o experimento tivesse arrancado pela cabeça sua melhor lingerie, Dorotéia jogou o TECO no chão e passou com a moto por cima.

A experiência não foi concluída. E o TECO virou um treco de sucata, pronto para voltar ao ferro velho.

Adeus, prêmio Nobel.

 

   Maria Rita Barbi acredita que o TECO conseguiria revelar o segredo do sorriso da Monalisa, e escreve no “Quebrando o Salto” às sextas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 22h41
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DE VOLTA À IDADE DA PENA

 

Tecnológicas leitoras, internéticos leitores, é com muita estranheza que confesso: este texto foi feito à moda antiga, na base da tinta e papel.

Não. Não desejo criar polêmica sobre o uso dos computadores. Nem protestar contra os limitados editores de texto disponíveis. Apenas fui pega na contramão da dependência (e por que não dizer, vício) da tal tecnologia da informação. E aqui conto minha história.

Logo pela manhã, ao começar a escrever o texto da semana para o blog, sou presenteada com um apagão. Eu e outros 72 mil habitantes da minha região. Bye, bye, computador. Tchau, Internet. Adeus, mundo virtual. A publicação do texto terá que esperar.

Vou até o vizinho Café Zahl, do meu amigo Batista, o barista, para tentar driblar a crise de abstinência tecnológica que a falta de energia elétrica traz. Ele me recebe atordoado: “Hoje só tem café de bule. O apagão apagou a máquina de expresso. Vai um purinho aí?”

Balanço a cabeça em sinal afirmativo. Batista nitidamente apresenta dificuldades para pilotar o fogão a gás de botijão - usado em emergências - ao mesmo tempo em que administra a fila de clientes e opera o caixa na raça, sem a ajuda de softwares.

Encontro uma mesa vaga. E decido escrever meu texto à moda de Hemingway. Tiro da bolsa uma esferográfica e meu Moleskine, tão pobremente utilizado com listas de supermercado, notas sobre tarefas e telefones de recados.

 

De cara, estranho minha letra. Um garrancho. Fico com a impressão que ela piorou muito nos últimos tempos. Tenho dificuldades para entender o que escrevi. Sem dúvida, é a falta de intimidade com o papel.

Viro o caderno do avesso e passo a escrever também nas margens. Depois, em todas as direções. Ganho uma sensação de liberdade inusitada, indisponível mesmo nos mais modernos programas digitais. Isso me anima.

Mas quem continua desanimado é Batista, que passa por mim e reclama: “Por causa desse apagão, o pessoal não está deixando nem gorjeta!”

Não foi dessa vez que ele trouxe meu café. E mesmo sem o combustível oficial para o motor cerebral, novas ideias surgem. Olho para as pessoas à minha volta e imagino como seriam suas histórias:

Um sujeito barbudo, de cabelo despojado, come lentamente um pedaço de bolo, amassando as migalhas. Deve ser um agente secreto à paisana, que observa seu alvo...

... uma velhinha terrorista, na mesa da frente, que além de comer brioches com o apetite de um hipopótamo, carrega em sua sacola de feira um microchip capaz de mudar a vida do injustiçado ex-combatente de guerra...

... um moço perneta, de braços musculosos, que toma seu pingado no balcão.

Anoto tudo.

Deleto a abstinência tecnológica. E aos poucos, retomo o prazer da escrita em punho. A esferográfica passa a rolar mais solta, a tinta flui com facilidade e a maciez do papel ajuda a construir letras mais belas. Retomo a mão para escrever.

Eis que finalmente surge o Batista, bradando: “Demorou, mas chegou!”

Provo o café, que já vem frio. Está forte demais. Se eu tivesse uma pena, daria para usá-lo como tinta.

    Maria Rita Barbi ficou com pena de publicar o texto do blog com atraso, mas continuará a escrever no "Quebrando o Salto" às sextas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 23h44
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MANIFESTO Pelo direito de ser branquela

 

Branquelos das praias, uni-vos! Façam do filtro solar a sua arma!

 

Sim, foi minha fraca melanina que me fez enxergar o preconceito contra a brancura que assola as areias das praias tupiniquins.  E, com ele, a ditadura da marquinha de biquíni ou calção, símbolo máximo do indivíduo saudável e sexy.

 

Candidamente venho aqui defender a brancura como direito de pigmentação.  

 

Afinal, pelas leis da física, o branco não é a ausência de cor, mas o conjunto de todas elas. Pude comprovar tal fenômeno em recente passeio pela orla de um badalado balneário de nossa terrinha, quando fiquei:

- Roxa de vergonha, após ter sido chamada de coelhinha da Páscoa;

- Azul de frio, depois de tentar me esconder nas gélidas águas do mar, em pleno inverno tropical;

- Verde de fome, já que os vendedores de gostositos não me viram, me tomando pela própria areia da praia;

- Amarela de susto, quando pigmeus futebolísticos, no meio de uma pelada, me confundiram com a trave;

- Vermelha de raiva, por ter ficado rosada com a má aplicação do cimento-solar.

 

Hoje tenho clareza que não há problema maior do que não se sentir bem na própria pele. É melhor assumir a cara-pálida do que ficar com a pele-vermelha e suas dores, assaduras, manchas, rugas e lamentações.

 

Celebremos nossa palidez com leite integral, açúcar refinado e biscoito de sequilho! Afinal, a beleza real está muito além da epiderme...

 

Alvos companheiros, não busquemos nosso lugar ao sol, mas um espaço à sombra, que pode ser debaixo de um coqueiro, guarda-sol ou barraquinha de sorvete.

 

Digamos não ao UVA, UVB e todas as nocivas radiações cósmicas superultravioletas.

 

Não estamos sozinhos nessa luta!

 

Somos amparados pelas indústrias cosméticas e farmacêuticas. Afinal, garantimos um mercado mundial de zilhões de dólares em bloqueadores solares para nossa pele perolada.

 

Mas contamos com outros apoios. Fabricantes de sabão em pó e alvejantes, vendedores de farinha de arroz e comerciantes de algodão natural estão todos em prol da brancura.

 

Assim, quarados, digo, queridos camaradas, uni-vos! Abaixo a ditadura da cor do pecado nas cidades à beira- mar!

 

 

 

 

 

Maria Rita Barbi cuidou da sua brancura com um belo tratamento de lama negra e escreve no “Quebrando o Salto” às sextas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 15h35
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Izabelita, Bela, Bel

  Vó Bel, aos 95 anos, com cara de 80

Quando editei meu primeiro livro, sobre as aventuras de um ratinho, produzi à mão dois exemplares. O primeiro, entregue aos meus pais, foi recebido com a empolgação de um avestruz.  O segundo, para meus avós, fez de Dona Izabel minha primeira leitora. Eu tinha 10 anos.

Izabelita era uma heroína disfarçada de avó. Com seus óculos de lentes megassônicas e seu superpoder de ultrarrápida leitura, devorava livros em um piscar de olhos.

Vó Bel lia de tudo. Da literatura clássica nacional e internacional, aos clássicos de banca de jornal.  Sempre tinha algum livro, revista ou jornal por perto. E, apesar de não cultivar preconceitos, não escondia suas preferências, nem seus desafetos.

Dona Izabel gostava de Machado de Assis e odiava José de Alencar. Mas nutria um amor platônico por Victor Hugo e Dante Allighieri, de quem sempre relia as obras, em forma de ritual. Penteava o cabelo para se encontrar com “Os Miseráveis” e passava batom antes de se aventurar pela “Divina Comédia”. A supermega vaidade, sem dúvida, caminhava lado a lado com as letras. Juro.

Durante alguns anos da minha infância, tive a sorte de ter Vó Bel como defensora e guardiã, depois da escola. Ela incentivava minha escrita, à base de muito leite condensado, groselha, pipoca, bolo de fubá e doce de nozes.

Separou um caderno de folhas pautadas para que eu fizesse os rascunhos dos meus textos e estava sempre pronta para ler e discutir minhas ideias. Acompanhou, com lentes curiosas, a criação de algumas obras-primas:

- “Ento, memória do meu eu” - um livro de poemas que ninguém nunca entendeu, inclusive eu;

- “O bambu e o vento” – um conto um tanto parado, apesar de descrever o movimento do ar em um bambuzal;

-“O amor interrompido” – uma clara (ou negra) influência dos romances água-com-açúcar;

- “Barataria” – uma fábula um tanto real, sobre a invasão de baratas alienígenas na cozinha da minha casa; e

-“A lavanderia” – um livro de suspense, que deixou a revelação da suja trama do vilão para o penúltimo parágrafo.

Nunca desconfiei que Izabelita era a única que ria e se divertia com minhas obras, enquanto outras pessoas sentiam vergonha por mim. Assim, com a ingenuidade de um porquinho-da-índia, dei à luz uma grande produção literária aos 12 anos de idade.

Depois disso, nunca mais escrevi tanto.

Hoje, do alto de seus 99 anos, Vó Bel aposentou a super-heroína. Perdeu o poder de ultrarrápida leitura, abandonou os óculos megassônicos e mal consegue se mexer.

Em minha última visita, num raro momento de lucidez, reclamou: “Você parou de escrever! Seus textos eram tão ruins que me faziam rir!”

Então, intimou que eu voltasse à escrita e encomendou alguns temas, enquanto eu penteava seus cabelos e lhe passava batom. E pediu para que eu lesse, pela ducentésima-quinquagésima-vez, alguns trechos da Divina Comédia.

Quantos saltos uma neta não quebra por uma vó!

Declaro reaberto o blog.

 

 

    Maria Rita Barbi acabou com o estoque de desculpas esfarrapadas e volta a escrever às sextas-feiras no “Quebrando o Salto”.

 



Escrito por Maria Rita Barbi às 12h43
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O dia em que não me tornei a primeira presidenta do Brasil

 

 

 

 

(Carta aberta para Sua Excelência Dona Annita, progenitora da escriba quebradora de saltos)

 

 

São Paulo, 1º de janeiro de 2011.

 

 

Prezada senhora minha mãe,

 

Hoje, oficialmente, é o dia em que não me tornei a primeira mulher presidente do Brasil. Sei que esse era seu maior sonho, mas essa singular honraria coube à Dona Dilma Jane, mãe de Dilma Roussef.

 

Sei também que sentimentos de inveja devem estar perturbando sua mente, como artigos em liquidação. Mas garanto que a senhora não está sozinha. Pelas minhas estimativas, mais de 3.456.932 mães brasileiras já sonharam a Presidência da República como o futuro promissor de suas filhas.

 

Como a senhora bem diria, possuo muitas características que me qualificariam para um cargo político:

- Sou sociável e não tenho vergonha de falar bobagens em momentos impróprios;

- Possuo noções de plataformas de petróleo e entendo do pré-cambriano ao pré-sal, graças ao diploma empoeirado de engenheira química;

- Luto arduamente pelos direitos das mulheres, principalmente pela cesta básica feminina, com perfumes, cremes, sapatos e bolsas a preço de custo;

- Gosto de falar em público e animar festas infantis;

- E usaria meus atributos de mulher-descascadora-de-abacaxis, para resolver os pepinos da nação.

 

Mas algumas questões me deixaram muito desconfortável para assumir a presidência em época tão promissora, como, por exemplo:

- A necessidade da reforma no SUS, no ensino, no transporte público e em hotelaria, até a Copa do Mundo;

- A obrigatoriedade da erradicação da pobreza extrema no país, até as Olimpíadas;

- A vontade de fazer do pré-sal a poupança de longo prazo do país, enquanto continuamos com a matriz energética mais limpa do mundo.

 

Na verdade, honorável progenitora, me senti desmotivada com tanto trabalho e responsabilidades presidenciais. E, para piorar, o cabelo “mãe-de-noiva”, penteado oficial de 7 entre 10 presidentas mundiais, não combinaria com meu formato de rosto, nem com minha cútis.

 

Assim, traindo seus desejos maternos mais profundos, decidi passar longe da candidatura ao cargo mais poderoso do país. Pelo menos dessa vez...

 

Sei que esta é mais uma entre várias de suas frustrações. Afinal, não virei campeã de peteca, tampouco atleta de ping-pong. Não casei com um magnata dos cassinos ilegais, nem aprendi a falar javanês. Não desempenhei carreira magnânima em finanças, nem me tornei um gênio da computação.

 

Porém, mesmo diante de tantos fracassos, garanto que vivo feliz na plenitude de uma vida pouco convencional. Afinal, apesar de não ter queimado sutiãs, vivo quebrando saltos.

 

Nem tudo está perdido. A senhora ainda não colocou um membro da prole na presidência da nação, mas tem uma filha que já virou nome de cidade. E é para lá que lhe ofereço uma viagem, como pedido de desculpas pela perda do sonho da filha-presidenta. Aposto que nem Dona Dilma Jane conseguiria tamanho prêmio de consolação...

 

No envelope que acompanha esta carta, a senhora encontrará uma passagem de ida e volta para a megalópole de Ritápolis, em Minas Gerais, com estadia paga. Agora, é só fazer as malas e começar um Feliz Ano Novo!

 

Com carinho,

 

Da filha, Maria Rita.

 

    Maria Rita Barbi espera por um bom governo da primeira presidenta do Brasil e deseja a todos um Feliz 2011.



Escrito por Maria Rita Barbi às 21h09
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Eu e Paul no Parque do Povo

 

 

 

 

Alguns dias na vida são mágicos. A sorte acompanha nossas escolhas e temos a nítida sensação que estamos no lugar certo, na hora certa.

 

Yesterday, 20 de novembro de 2010, foi um desses dias. Eu poderia ter ido para Santos, mas fiquei em São Paulo. Poderia ter acordado tarde, mas madruguei. Poderia ter lido um livro, mas escolhi andar de bicicleta. E foi assim que pedalei com Paul McCartney.

 

Era pouco mais de 11h00 da manhã quando cheguei ao portão principal do Parque do Povo, quintal de casa durante os finais de semana. Embaixo da marquise da entrada, onde fazia sombra, vi uma figura conhecida, parada em cima de uma bicicleta.

 

“Aquele ali parece o Paul McCartney”, balbuciei, em voz alta, enquanto apontava para o homem e tentava ponderar o imponderável. “Paul. Show em São Paulo. Estádio do Morumbi. Esse fim de sema...”

 

 “Stop! Stop!”, ouvi vozes que me mandaram parar.

 

Nem precisei seguir a lógica para confirmar o milagre. Em segundos, fui abordada por seguranças, que agitaram os braços e gritaram para que eu permanecesse parada no lugar.

 

“Stop!” “Don’t get closer!”, bradaram dois homens vestidos com roupas de ginástica, dignos agentes camuflados de esportistas.

 

Sem óculos escuros, nem boné. Vestindo camiseta branca, shorts na cor preta e tênis, lá estava ele, em carne e osso. Sir Paul McCartney.

 

Fiquei surpresa. A última coisa que eu esperava no mundo era encontrar com Paul. E logo no meu singelo e pacato quintal! Dezenas de amigos meus teriam dado suas fortunas (ou negociado seus cônjuges) para ter uma chance como essa. E eu, nem tão fanática, havia tirado a sorte grande.

 

“Leave him alone”, ordenou um dos seguranças, para que eu deixasse Paul em paz.

 

E o outro completou:

 

“Please, don’t tell anyone it’s him”, pedindo com uma gentileza espartana para que eu não espalhasse a notícia que o ex-Beatle se encontrava no parque.

 

Eu concordei com os pedidos, uma vez que todos os seguranças eram altos, fortes e faziam o estilo 007 “Live and Let Die”. E, claro, porque primo por minha privacidade e imagino os percalços que os ídolos vivenciam por causa da fama.

 

Então, fiz o que uma pessoa madura e avessa à tietagem faria na presença de um ex-Beatle: passei a segui-lo pelo parque, fingindo naturalidade. E fui a única a fazê-lo.

 

No início do passeio de bicicleta, Paul tomou a liderança. Sua esguia namorada, Nancy Shavell, seguiu logo atrás. Ela vestia calça de ginástica preta e um suéter pink, de manga longa. Para completar, usava chapéu aviador cáqui e aparentava estar maquiada. Nancy parecia animada e estava bem falante.

 

“This is a really great bike”, ela disse, elogiando a bicicleta que conduzia.

 

Depois, a morena desceu da bike e brevemente se pendurou em um dos galhos mais baixos de uma grande árvore, próxima da entrada principal. O tipo de brincadeira que alguém como eu faria...

 

Paul e Nancy continuaram a pedalar devagar, em ritmo de passeio. Exploraram todas as trilhas do parque e até pararam para tirar fotos, em um canteiro coberto por pequenas flores amarelas.

 

Bem disposto e em forma, o ex-Beatle não deu bola para uma tímida partida de futebol que acontecia em um dos gramados. Nem ligou para a final do campeonato brasileiro de bumerangue, no canteiro central. Com um olhar mais intimista e contemplador, sua atenção ficou voltada para as belezas do parque.

 

Um dos homens mais famosos do planeta quase se passou por um cidadão comum.

 

Muitos não o reconheceram. Os poucos que o fizeram, mantiveram um ar blasé, como se encontrar com Paul McCartney fosse algo corriqueiro e comum. Somente uma mulher demonstrou certa emoção, a ponto de ficar levemente acinzentada com o encontro inesperado.

 

Durante os quarenta minutos em que acompanhei o casal, pedalando bem de perto ou às vezes meio de longe, pensei em várias coisas para dizer a Paul:

- que muitas vezes sou chamada de Lovely Rita, em sua homenagem;

- que a primeira música que aprendi a cantar em inglês foi Can’t Buy me Love;

- que adorei a última coleção de sapatos da Stella McCartney, cujos saltos dificilmente devem quebrar.

 

Mas não consegui. Nem eu, nem ninguém. A equipe 007 que acompanhava o ídolo não permitiu contato algum. Nem para uma fotinha.

 

Quando Paul e Nancy deixaram o parque, por uma saída lateral secundária, deu até vontade de gritar “Get Back!”. Mas certamente o ex-Beatle não voltaria para um bis.

 

De qualquer maneira, mesmo sem trocar qualquer palavra, pedalar ao lado de uma lenda pop foi uma experiência mágica. Daqui em diante, o Parque do Povo será o Parque do Paul. Let it be!

    Maria Rita Barbi é fã dos Beatles, acredita que nada é impossível e escreveu esse texto ouvindo o hit "Hello, Goodbye".



Escrito por Maria Rita Barbi às 22h46
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DESNUTRIDO, MAS AINDA VIVO

 

 

Hoje, o “Quebrando o Salto” completa 2 anos de vida. Uma idade encantadora, de pleno crescimento, novidades e muita energia.

 

Mas, ao invés de um espaço corado, robusto e fortinho, o blog chega ao seu biênio um tanto pálido, subdesenvolvido e desnutrido. Tudo pela falta da alimentação contínua de posts.

 

Admito, tenho sido relapsa. No mínimo, uma autora desnaturada. Poderia descrever aqui as inúmeras razões pelas quais postei muito pouco ao longo do último ano. Mas prefiro listar apenas as desculpas esfarrapadas:

 

Logo depois da eliminação do Brasil na Copa do Mundo, fui até a padaria comprar cigarros e...

... Comecei um curso de javanês...

... Parei o curso de javanês e me matriculei em um curso de grego...

... Falei grego no trabalho e ganhei um aumento – de responsabilidades...

... Virei Barbisaura, a escrava da labuta...

... Fui raptada por pigmeus neo-abolicionistas...

... E libertada, sem mala, nem cuia, na fronteira do Brasil com o Paraguai...

... Caminhei dias, sedenta e faminta, por terrenos áridos e estradas empoeiradas...

... Até alcançar a iluminação – uma lambreta, no final de um túnel, na contramão...

... Por sorte, coincidência ou obra do destino, não sofri arranhão algum com a colisão - mas quebrei outro salto...

... Manca, mas sempre otimista, retornei à megalópole de carona, em um caminhão clandestino de gado, promovendo conversas para boi dormir...

... E me mantive em meditação desde então, até esta data tão festiva.

 

Para os 7 leitores que ainda acompanham minha aventura bloguística, meus sinceros agradecimentos. Comprei soro, Sustagen e composto vitamínico. Juntarei o elixir nutritivo às palavras e permitirei ao “Quebrando o Salto” crescer novamente, no seu ritmo. Parece fácil. Mas já sei que não é...

 

 

 

   Maria Rita Barbi celebrará o aniversário do blog comendo bolo Pullman e brigadeiro de colher. Tudo bem light e com caloria zero, claro.



Escrito por Maria Rita Barbi às 22h17
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É PRECISO CONTAR COM A SORTE

 

 

Falta pouco tempo para o início do duelo entre Brasil e Holanda, pelas quartas de final da Copa do Mundo. O país, em peso, torce para que a seleção brasileira dispute a final e conquiste o Hexa.

 

Mas será que passaremos pela Laranja Mecânica, o adversário mais forte, vitaminado e concentrado até então?

 

A tarefa é difícil. E depender única e exclusivamente da técnica e habilidade dos jogadores já não é garantia de sucesso. Será preciso também contar com a Sorte.

 

Dama mais requisitada dos gramados, a Sorte é geniosa e tem lá os seus caprichos. Durante a competição, pode tanto simpatizar quanto fazer biquinho para uma mesma seleção, como uma mulher em pleno surto hormonal.

 

Com tamanha imprevisibilidade, não dá para saber de antemão quais serão as escolhas da Sorte.

 

Então, como atrair, em definitivo, tal virtuosa para a seleção?

 

Simpatias, rezas, mandingas. Terços, patuás e pés-de-coelho. Da leitura da Bíblia à Torá, todas as manifestações e crendices podem invocar a Sorte.

 

Mas nada é mais eficaz do que ter por perto um Xiita da Copa.

 

Futebolista extremista, fanático pela seleção e desprovido do senso comum, o Xiita da Copa faz da sua torcida uma missão. Ele acredita que sua vibração pode influenciar os jogos e sente-se igualmente responsável pelos erros e acertos da seleção.

 

Os Xiitas da Copa são guiados por um princípio simples: quando a Sorte chegar, é preciso continuar a fazer tudo do mesmo jeito, para que Ela se sinta à vontade e decida ficar.

 

São vários os exemplos desse monitoramento. Alguém saiu da frente da TV no instante em que a seleção fez um gol? O pé-frio não pode mais voltar. Levantou e foi até a janela quando o Brasil iniciou um contra-ataque genial? Está proibido de sentar. E assim por diante.

 

Durante o confronto contra a Holanda, os Xiitas da Copa vestirão, no mínimo, a mesma camisa verde e amarela usada nos jogos vitoriosos da seleção.

 

Comerão quitutes tradicionais como empadas, pastéis e coxinhas. E proibirão o consumo de alimentos adversários, como queijo gouda e torta holandesa.

 

Alguns extremistas do sexo masculino até evitarão admirar as beldades dos Países Baixos, para não comprometerem a Sorte com outro foco de atenção.

 

Em uma partida decisiva como essa, até os torcedores céticos se juntarão aos xiitas para formar uma “corrente pra frente”.

 

Assim, pelo menos uma vitória está garantida: a da emoção sobre a razão.

 

Se o Brasil ganhar o jogo, os Xiitas da Copa ficarão com a sensação de dever cumprido. Celebrarão a vaga para as semifinais, degustando o suco dos laranjas, ao som de vuvuzelas enlouquecidas.

 

Mas, se o resultado não for favorável... É melhor nem pensar, para não dar azar.

 

   Maria Rita Barbi é uma Xiita da Copa.  Mesmo vendo o jogo do escritório, usará camisa do Brasil, chapéu verde-amarelo e uma meia com a bandeira estampada do país, companheiros fiéis desde o primeiro jogo da seleção na África.

 



Escrito por Maria Rita Barbi às 09h37
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ZERO A ZERO

 

Copa do Mundo, ontem, Brasil contra Portugal. Eu e alguns colegas de trabalho decidimos ver o jogo no escritório.

 

A seguir, imagem ilustrativa sobre o comportamento dos torcedores corporativos durante a partida:

 

 

 

Foi a primeira vez que, oficialmente, dormi em serviço.



Escrito por Maria Rita Barbi às 10h36
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O encontro do escritor com a morte

 

 

Ele abriu os olhos depois de um breve momento de cegueira e, sem perder a lucidez, constatou a diferença no seu estado físico. Na frase derradeira de sua existência, não cabiam mais vírgulas. Havia chegado ao ponto final.

 

Em um espaço não identificado, logo foi abordado, sem entremeios.

- Alto lá! Quem se apresenta? É o mecânico?

- Não, sou José.

- Qual José?                                               

- O escritor. Mas também já fui mecânico, funcionário público, editor, tradutor e jornalista.

- Então você é José, o vencedor do Prêmio Nobel?

- Sim, tenho o Prêmio Nobel. E quê?

- Bem, você mereceu esse reconhecimento por tanta sabedoria, pois se tornou um ícone literário para o mundo.

- Isso, na verdade, não tem significância. Meu avô, o homem mais sábio que conheci em toda minha vida, não sabia ler, nem escrever.

 

No encontro do escritor com a Morte, pairava certa névoa de curiosidade, tanto de um, quanto do outro. Então, ele continuou.

- Sempre pensei que você teria a forma de uma mulher charmosa e sedutora. Imaginei tudo tão bem, que até escrevi sobre isso em um livro.

- Decepcionado?

- Decepcionado, não. Talvez um pouco surpreso. E poucas coisas ainda me surpreendiam em vida.

- Assustado?

- Também não. Apenas tenho pena de já não estar no futuro e não ver o mundo tão bonito.

 

A Morte continuou a conversa, bastante interessada. Afinal, estava olho-no-olho com uma personalidade ilustre.

- Está arrependido de algo? Queria ter feito alguma coisa de diferente na vida?

- Não, se pudesse repeti-la, repeti-la-ia exatamente como foi.

- Saudades?

- Sentirei falta de Pilar. Minha vida não teria sido o que ela foi, não fosse a Pilar.

 

Aquele tipo de amor desafiava a Morte. Ela sabia que estava diante de um homem extraordinário.

 

Decidiu desviar-se um pouco de sua função, para papear um pouco mais com o escritor.

- A vida foi difícil para você?

- Nunca houve uma força superior que olhasse para mim e dissesse: vou te preparar uma vida bonita. É uma vida que não poderia ter sucedido, pela minha infância, adolescência, de onde vim. Mas sucedeu.

 

 A Morte não queria parar de conversar. Só de estar próxima e trocar algumas palavras com o escritor, ela se sentia mais viva. Mas já começava a fugir muito do protocolo e precisava terminar o seu trabalho.

 

Assim, Ela convidou o escritor para acompanhá-la a outro local. Vendo que ainda teria um bom caminho pela frente, ele perguntou:

- Terei que passar de lança em riste?

- Não. Você não. Aos mestres, são desobrigados os esforços.

 

Quando chegou ao destino, o escritor bradou:

- Afinal, onde estou? No céu? Inferno? Purgatório?

- Nenhum deles. Nós dois sabemos que você, como ateu convicto, não acredita em nada disso.

- Então, estou vivendo o improvável, ou melhor, flertando com o impossível, como em todos os meus livros?

- Não, José. Você está, na verdade, onde sempre esteve, mas não conseguia ver por, digamos, razões terrenas. Este é o Salão dos Imortais.

- Agora acabou?

- Não. Você continuará a falar pelos seus livros. Para homens como você, nunca acaba.

 

O escritor foi assim eternizado. Agraciado pela vida, admirado pela Morte. Honrarias. Reverências. Homenagens. No mundo dos mortais, restava apenas o último adeus ao homem de Azinhaga.

 

 

     Maria Rita Barbi homenageia José Saramago e tenta escrever semanalmente no “Quebrando o Salto”, quando pode.

 



Escrito por Maria Rita Barbi às 12h23
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Quebrando o Salto no blog do Torero

 

Hoje, saiu no blog do Torero (colunista do UOL) um texto de minha autoria. Quebrei o salto (ou seriam as chuteiras?) e escrevi sobre a estreia do Brasil na Copa.

 

Para quem quiser conferir, o link é:

http://blogdotorero.blog.uol.com.br/arch2010-06-01_2010-06-30.html

 

Um beijo,

Maria Rita.

 



Escrito por Maria Rita Barbi às 18h51
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A BOLA QUE FOI PARAR NA COPA

Quando ela chegou embrulhada em papel crepom verde e amarelo, Banguela sorriu. A avó, Dona Gertrudes, quituteira de profissão, tinha prometido ao netinho uma bola de futebol de verdade, quando caísse seu primeiro dente de leite. Cumpriu a promessa.

 

O menino, extasiado, logo trocou a fantasia de pirata pela camisa da seleção. A bola tinha um defeitinho mínimo, mas Banguela nem ligou. Partiu para o quintal com sua nova paixão. Como queria ser um Ronaldinho, tinha que aprender a chutar bem forte. Treinou contra a parede, em um gol improvisado. Até que, de repente, chutou tão alto, mas tão alto, que a bola foi parar no telhado da casa do vizinho, Seu Esmeraldo.

 

“Esmero”, como era chamado pela avó de Banguela, tinha sido jogador de futebol. Quando moço, arrastava multidões para os jogos da várzea, tendo Gertrudes como principal fã. Na dividida com a bola, porém, a quituteira perdeu a jogada. Ele escolheu o futebol, em um time da segunda divisão. Ela se casou com o padeiro, em tempo recorde. A carreira de Esmero teve um desfecho rápido. O casamento de Dona Gertrudes também. Durante uma das Copas, Esmero até tentou ensaiar um amistoso com Dona Gertrudes. Mas, fora de forma, ele só deu passes errados e ela devolveu as investidas com um bolo.

 

Mesmo ostentando o placar de zero-a-zero com a vizinha, Seu Esmeraldo torcia para uma possível prorrogação. Tanto que ficou feliz ao ouvir os gritos de Banguela, pedindo pela bola perdida. Apesar do perigo da tarefa, ele não deixaria o menino sem a pelota e até poderia posar de herói para Dona Gertrudes. Na descida do telhado, já de posse da redonda, a espinha fez “crec”, mas ele nem ligou. Vitorioso, previa que, no mínimo, ganharia alguns quitutes. Com um pouco de sorte, poderia ganhar algo a mais...

 

O ex-jogador ajeitou a bola no chão com carinho, para devolvê-la a Banguela em grande estilo. Lembrou de seu último chute a gol, da paixão pela bola, da vontade de fazer parte da seleção canarinho. Tomou distância. Respirou. Correu para a bola e chutou. Mas a pelota voou como em um tiro de meta, ultrapassou o quintal de Banguela e caiu em um longínquo terreno baldio. Mais um erro de ataque do ex-jogador...

 

Sorte de Piolho, que procurava por alguma comida no terreno, bem na hora em que a bola quicou no chão. Menino pobre, ele tinha fama de ser cascão, mas era campeão absoluto de embaixadinhas. E não resistiu ao ver uma bola tão novinha ser dispensada naquele matagal cheio de lixo. Correu para o campinho com a redonda na mão e convocou uma partida relâmpago, para estrear a descoberta.

 

Em poucos minutos, Piolho reuniu Marcelinho, Zé Bétio, Maicol, Mirandinha, Tatu, Beiçola, Dentinho, Jacaré e Catatau. Todos descalços, de pés sujos e sem camisa, mas com muito espírito guerreiro.

 

Com aquela bola nova, Piolho se sentiu o próprio Pelé. E sendo Pelé, não poderia jogar com qualquer amador. Assim, renomeou um a um e formou dois times de craques. Zico, Cafú, Sócrates, Romário e Biro Biro jogariam contra Garrincha, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Leão, e ele, o Rei. Como amigo, ainda teve que convencer Marcelinho que ser Cafu era tão bom quanto ser Zico e explicar para Beiçola que ele tinha sido nomeado Garrincha, não porque ele era o menino mais velho da turma, mas porque era quem melhor driblava.

 

Escanteios, defesas, passes, chutes a gol. Foi a melhor partida de futebol na vida de Piolho, ou melhor, Pelé. Cinco a dois no adversário, com quatro gols dele - sendo um de bicicleta. Tudo graças à bola mágica, que conferiu-lhe superpoderes de astro do futebol.

 

Porém, na chegada ao cômodo onde morava, a encantada bola foi imediatamente confiscada pela irmã mais velha, Marcilene. Devolveria apenas caso o menino concordasse em tomar banho. Mas ele se recusou. Fim do reinado de Piolho...

 

Na manhã seguinte, Marcilene, 18, corinthiana roxa, saiu bem cedo para o trabalho. Lavava, passava e cozinhava para a família da pequena Laura, solitária filha única. Levava, em sua sacola, a fatídica bola, que entregaria para a menina. Melhor assim. Precisava sumir com a bolota de casa, para punir o irmão pela sujeira – uma conduta, no mínimo, anti-esportiva.

 

Filha de piloto comercial de aeronaves, Laurinha quase não via o pai. Assim, quando ele estava de folga em casa, sua vida virava uma festa. E foi exatamente em um desses dias que Marcilene chegou com a bola. Laurinha vibrou quando viu o presente. Possuía uma coleção de Barbies, mas gostava muito de futebol. A menina pegou a bola e saiu tocando, mostrando categoria nos dribles. Tirou o Comandante Silva do escanteio, cavando uma partida com ele.

 

Pai e filha monopolizaram a quadra vazia do prédio e jogaram durante toda a manhã. Ela, como Robinho, partia para o ataque. Ele, como Taffarel, tentava defender o gol como podia, usando mais barriga do que técnica. O jogo rolou solto, sem faltas, até Marcilene apitar da varanda, chamando a menina para almoçar. Era dia de escola e não poderia se atrasar. Fim de jogo. O pai se despediu de Laurinha, pois também voltaria a trabalhar. A menina deixou a bola com ele, como lembrança da primeira partida familiar.

 

O Comandante Silva retornou ao aeroporto, devidamente uniformizado. Com uma mão, puxava sua maleta de bordo. Com a outra, segurava, orgulhoso, a bola dada pela filha.

 

Chegando ao saguão, uma grande multidão se fazia notar. Bandeiras. Gritos. Faixas. Comoção. A bateria de uma escola de samba animava os torcedores, ao som do acorde: “É campeão!”. Aguardavam a passagem da seleção brasileira, que embarcaria, em instantes, para mais uma Copa do Mundo.

 

Curioso, o comandante se aproximou da turba. Fez a finta em um grupo com perucas verdes e amarelas, mas ao tentar chegar perto do corredor onde passariam os jogadores, foi barrado por velhinhas corneteiras. Quando os jogadores apontaram, o piloto levou um esbarrão - lance digno de cartão vermelho. Contundido durante a confusão, sem querer soltou a bola, que rolou, rolou, rolou, até parar nos pés do capitão da seleção. Como por reflexo, o jogador agradeceu e carregou a bola para dentro do avião.

 

Momentos depois, já em pleno voo, a 11 mil metros de altitude e velocidade de cruzeiro, os jogadores brincavam com sua nova amiga redonda. Alguns podiam até jurar que havia algo de diferente com aquela bola. Sentiam uma espécie de vibração especial, como uma torcida pela vitória. Seria psicológico? Talvez. Mas, na dúvida, para não afastar a sorte da seleção, resolveram transformar a bola em talismã.

 

...

 

Alguns dias depois, em algum lugar na periferia da metrópole que não pode parar, o menino Banguela assistia à TV, saboreando um delicioso prato de macarrão. Entre uma babada e outra de molho, acompanhava a transmissão dos primeiros treinos da seleção no país da Copa. Em meio a muitos passes, comentários e entrevistas, uma bola, em particular, ganhou um close especial e chamou sua atenção. Ela parecia bem comum, mas o ângulo da imagem revelava um defeitinho que só Banguela saberia perceber...

 

Ele não podia acreditar! Sua bola perdida tinha ido parar na Copa!

 

Banguela ficou mais do que feliz. Saiu correndo pelo quintal, gritando e comemorando. Depois de tanto berrar, se perguntou: como é que isso tinha acontecido? Pensou um, dois, três minutos. Continuou pensando com força, até que finalmente descobriu: foi obra do seu Esmeraldo, no dia em que ele tirou a bola do telhado. Craque que era, chutou-a para o céu e a fez chegar direto em Deus, que é brasileiro, e resolveu dar um presentinho para a seleção...

 

 

  Maria Rita Barbi já comprou corneta e bandeira para torcer pelo Brasil na Copa e tenta escrever no “Quebrando o Salto” sempre que pode.



Escrito por Maria Rita Barbi às 23h37
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TIA DALMA

Franzina, pequenina, invocada. Uma lasquinha de gente, perambulando ligeira para lá e para cá. Tia Dalma era assim. Às vezes rabugenta. Outras, apenas enrugada. No fundo, era um misto de formiga atômica e general militar condecorado. Estava sempre pronta para lançar uma opinião contundente. E não era à toa. Para toda a vizinhança, parentes e amigos, ela detinha uma curiosa posição social: era uma especialista em dor.

 

Imigrante de guerra, lutadora por natureza e disciplinada por opção, Tia Dalma havia passado por quase tudo. Sobreviveu a ferimentos de bomba, partos complexos, maridos exploradores e planos monetários equivocados de governo. Conheceu como ninguém as dores do mundo... Computou dezenas de cirurgias, colecionou doenças crônicas, enfrentou colônias de fungos, bactérias e vírus como ninguém. Comeu o pão que o diabo amassou... Mas não se rendeu. Transformou a desgraça em notoriedade. Com tantas dores catalogadas, decidiu compartilhar seu conhecimento com quem quisesse. Dor de estômago? Chá de boldo com pariparoba... Hemorróidas? Banho de assento com limão... Dor de corno? Meio litro de cachaça com mel...

 

Os conselhos de Tia Dalma passavam tanta credibilidade, que as pessoas realmente procuravam suas soluções simples para os desconfortos da vida. E não parava por aí.  Reza a lenda que a cartilha de dor da Tia Dalma percorreu muitos corredores de médicos renomados. Funcionava como um indicador, para compreender melhor os pacientes. Afinal, na escala de dor da matriarca, pedra no rim doía mais do que gota, mas era igual à dor do parto em intensidade. Já dor no braço de criança recém-alfabetizada era pura fita...

 

Com seu termômetro para as mazelas, Tia Dalma também auxiliava as chefias a pegar os funcionários no pulo do gato. Pregava que dor de cabeça às 4 da tarde era desculpa para terminar o expediente mais cedo. E dor de barriga às segundas-feiras pela manhã era gancho para chegar atrasado e culpar o almoço de domingo com a sogra.

 

Enfim... Tia Dalma reinava absoluta no campo do aconselhamento sobre o sofrimento. Mas tudo mudaria a partir de um domingo de inverno, entre uma e outra mordida em um saboroso pé-de-moleque...

 

Gritos. Arrepios. Murmúrios. Latejamento. Um gosto amargo na boca, digno de machucado profundo... A dureza da guloseima havia lhe custado um dente. Arrancado da boca em uma fração de segundo, sem anestesia, nem aviso prévio. Era seu primeiro dente perdido... Nada poderia tê-la preparado para aquela crueldade de dor. Nada. Pior do que inflamação no ciático. Vinte vezes mais intensa do que a frustração pela perda da copa de 98. Um milhão de vezes mais forte do que dor de cotovelo.

 

Por sorte, Tia Dalma conseguiu guardar o dente, na esperança de reimplantá-lo. Lavou e secou o objeto com carinho. Depois, embrulhou-o com cuidado em papel alumínio, colocando-o em um porta moedas, como um relicário.

 

Correu pela cidade em busca de um dentista de plantão. Rodou, esperneou, praguejou. Fez uma promessa secreta para nunca mais comer doces.  E depois do quinto bairro percorrido pelo táxi, localizou uma portinha com a luz acesa, debaixo de um letreiro que sugeria uma clínica dentária 24 horas.

 

Sem delongas, Tia Dalma explicou ao doutor seu drama e se colocou a postos para o tratamento. Desembrulhou e entregou o dente extraído, apontou o local do trauma, gemeu mais um pouquinho de dor.

 

Após minutos de exame cauteloso, o dentista finalmente a abordou:

- Sinto dizer, Dona Dalma... Mas a senhora ainda possui todos os dentes.

- Impossível, doutor. E a dor? Os sintomas? O dente arrancado que eu mesma entreguei para o senhor???

- Aquilo que a senhora trouxe era um amendoim...

 

Tia Dalma saiu de fininho do consultório, encolhida e cabisbaixa. Já não sabia mais o que doía ou não. Estava sugestionada por anos de aconselhamento. Vítima de suas próprias ideias. Cega pela própria fama... Decidiu que abandonaria de vez a cartilha de dor, com todas as suas regras, escalas e intensidades. Afinal, Tia Dalma percebeu, a duras penas, que a dor da vergonha poderia superar todas as outras...

 

 

  Maria Rita Barbi redigiu o texto com base em fatos reais e tenta escrever no “Quebrando o Salto” sempre que pode.

 



Escrito por Maria Rita Barbi às 11h47
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AOS FOLIÕES, A RESSACA!

 

 

Em uma esquina qualquer do samba, as pernas do Arlequim acordam enroscadas com os braços do Pierrô. Afundados em uma pilha de latinhas vazias de cerveja, litros de pinga, copos plásticos e serpentina, os personagens - ainda sonolentos - se encaram entre a dúvida e a desconfiança. As memórias esparsas e imprecisas da noite anterior formam imagens caleidoscópicas de uma festa que fugiu da realidade e adentrou o sonho da ilusão.

 

Boca seca, bafo de bode, rosto borrado, corpo suado. Arlequim e Pierrô compartilham das mesmas condições físicas e dividem o mesmo teor alcoólico no sangue. Enquanto a cabeça latejante de Pierrô o impede de raciocinar, Arlequim lentamente se pergunta como um sutiã de lantejoulas douradas foi parar – inteiro - dentro de sua garrafa de estimação. Mas apenas quando bate a sensação de falta - uma espécie de vazio e perda de algo realmente importante - os dois bradam: “Onde está a Colombina???”

 

A musa carnavalesca fugiu com o gari, depois da sexta dose de rum com tequila. Quando foi vista pela última vez na avenida, acenava um esfregão no ar e depois o vestia, imitando uma peruca de Medusa. De certo, deve ter se perdido pelas ladeiras do som, limpando chão durante o último grito da folia...

 

Foi-se o Carnaval. Aos foliões, a ressaca!

 

Para o destaque do baile de máscaras, a fantasia de homem-pássaro já não serve mais... É hora de salvar as caras penas de faisão e recolher o chapéu à la Carmem Miranda. Como um pavão depenado, observa embriagado o fim da esbórnia, regada a uísque, Campari e Martini. A maquiagem borrada já não esconde mais os olhos borrachos e cansados. O corpo sofre...

 

Em outro lado da cidade, prostrada nas arquibancadas vazias do sambódromo, a passista da escola de samba acorda do pesadelo da perda de mais um título. Depois de choramingar as mágoas nos ombros do Velho Barreiro, dona Azia finalmente chega para lhe fazer companhia.

 

Para cada folião-esponja, uma estratégia contra a ressaca. Não importa o quão bizarras sejam as fórmulas e combinações. Os estômagos e fígados pós-carnavalescos sempre agradecem, quando a receita funciona. Mesmo que por milagre.

 

Arlequim aposta no café com banho morno, como seu santo remédio. Já Pierrô prefere ovos de codorna engolidos in natura, antes de um belo prato de macarrão com queijo. O destaque do baile de máscaras ataca uma banana, regada a muita água mineral. Por fim, a passista da escola de samba acredita na combinação de chá de boldo, sanduíche de bacon e tacos mexicanos – ingeridos nessa ordem.

 

E a Colombina?

 

Sem sutiã, sem sandália e sem esfregão, a chapada musa inspiradora da limpeza toma café com isotônico, em uma padaria qualquer. Lamenta a cabeça pesada, os pés esfolados e o cheiro de Pinho Sol que exala de cada microporo da sua pele. No romper do dia, percebe ao longe o último fiapo de comemoração. É o bloco do Sonrisal. Pensa em se juntar aos sobreviventes, que seguem capengas o caminhão de som. Mas desiste. Quem sabe, no próximo Carnaval...

 

   Maria Rita Barbi curte Carnaval e  tenta escrever no “Quebrando o Salto” sempre que pode.



Escrito por Maria Rita Barbi às 20h37
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