QUEBRANDO O SALTO


SOBREVIVENDO NA MEGATETRALÓPOLIS

 

De acordo com a definição do “Aureliano”- clone pirata de dicionário, mal editado e sorrateiramente comercializado em bancas clandestinas –, a palavra MEGATETRALÓPOLIS significa “um mundão de cidade que não tem começo nem fim”. Muitas localidades poderiam se adequar a tal definição. Mas apenas as metrópoles de proporções cegas, ou com problemas sérios no campo da visão, podem se utilizar plenamente desse termo.

 

O dia-a-dia em uma megatetralópolis é permeado de magnitude. Tanta grandeza se reflete, inclusive, no vocabulário da população. Até expressões mais comuns se convertem em substantivos aumentativos, que são imediatamente apropriados como jargão. Por exemplo, falta de luz é “apagão”. Roubo sincronizado é “arrastão”. Roubo político é “mensalão”. Campeonato de futebol é “Brasileirão”. Transporte público coletivo é “busão”. E por falar em busão... só uma verdadeira megalópolis é capaz de oferecer três ônibus grudados em um, em formato de minhocão.

 

Em uma tetralópolis que se preze, mulher nenhuma pára o trânsito... Ele já vem parado, sem distinção. Os congestionamentos homéricos atingem damas, cavalheiros, crianças, cavalos  e lesmas - menos os motoqueiros.  Aliás, os membros da classe motorizada em duas rodas aceleram ao máximo e, assim como estilistas da moda urbana, costuram ruas e avenidas com identidade própria e desfilam suas magrelas nas pistas improvisadas, forçadas entre faixas de carros e veículos de quatro patas. 

 

No meio de tantas qualidades, há também alguns defeitos. Assim como uma madame caprichosa, de chapinha recém feita no cabelo, uma digna megatetralópolis não gosta de chuva. E se chover? A cidade faz biquinho, bate o pé e pára, tolhendo de vez o direito de ir e vir do cidadão comum. E quem utiliza o transporte público, seja ele ônibus, trem ou metrô, acaba tomando ‘banho de povo’ no horário de rush dos dias chuvosos. Almôndega humana, quibe cru, picadinho de carne... É um amontoado de gente fervilhando em molho de suor, colando e se espremendo de cá e de lá, para tentar uma vaga desesperada em um coletivo qualquer. Tarefa, aliás, bem mais difícil do que concorrer a uma vaga no vestibular...

 

Somente uma cidade que é mega - mas mega mesmo- consegue confinar grandes egos em metros quadrados diminutos.  Assim, a quantidade de “apertamentos” habitacionais se multiplica exponencialmente, em conseqüência do “boom” da construção quase incivil. E os espaços de trabalho seguem cada vez menores, para garantir um ambiente de maior “concentração”. Ao final, a maioria das pessoas acaba vivendo no espreme-espreme entre móveis, plantas, grampeadores e surtos de narcisismo. Resultado? Briga de condomínio, porque a vaga do estacionamento privativo é menor do que o espaço ocupado pelo motorista e seu ego. Discussão de bar, porque a cerveja do amigo veio com menos espuma e mais auto-importância. E a velada reclamação na diretoria, porque outro departamento ganhou resmas de papel reciclado, acompanhadas de folhas de presunção. Absurdos? Talvez... Mas quem resiste a esses barracos do cotidiano, que fornecem tão rico material para conversas de elevador?...

 

O cidadão megatetralopoliense vive reclamando das condições de vida na cidade mas, no fundo no fundo, já está acostumado com superlativos de fartura. Tanto que é muito fácil encontrar comida na rua, a qualquer hora do dia. Vira e mexe, em qualquer bairro da cosmópolis, é possível ver restos de frutas, vegetais e até mesmo pedaços de um pãozinho amanhecido, largados no canto de uma calçada qualquer. Problemas crônicos com o lixo? Bem... Sorte das rotundas ratazanas da cidade, que vivem a se banquetear com restos e mais restos de refeição.

 

Mas os dilemas da megalópolis não param na emissão desenfreada dos dejetos cosmopolitas. Há excesso de gente, de barulho, de carro, de poluição. E também de fila... Ah... Não faltam filas no cinema, na padaria, no motel, no velório, na lanchonete. É fila para atravessar a rua, para comprar amendoim, para pedir informação, para xavecar, para tudo. Há fila para fazer fila. Precisa de alguma coisa? Vá procurar sua fila!

 

Por outro lado, fazer parte de fila, tribo, turma ou clube não é necessariamente uma obrigação social para o cidadão megalopoliense. A vida na tetralópolis  sugere, acima de tudo, o individualismo.  Como exemplo clássico desse fenômeno, mais de 71,27% dos moradores da megatetralópolis desconhece o nome do seu vizinho.  O que não é necessariamente algo ruim. Ignorar o morador ao lado pode, muitas vezes, evitar confusão. Pense nos vizinhos semi-mafiosos, nas velhinhas estelionatárias,  nos pseudo-Pavarottis de chuveiro,  nos adoradores de seitas pré-colombianas e outros tantos elementos suspeitos que coabitam parte de bairros e condomínios... Toda distância pode ser pouca.

 

Apesar do culto à individualidade, o cidadão megacosmopolita é capaz de fazer sacrifícios em grupo, em prol de uma cidade mais bela. E chega a passar meses agonizando em horário de verão, economizando energia, para gastá-la de uma só vez no final do ano, através das milhares de luzinhas que iluminam em tempo integral as decorações de Natal... Ho ho ho... E dá-lhe linhas de transmissão elétrica!...

 

Na vida magnânima da megatetralópolis, não há espaço para acreditar em Papei Noel, nem prestar atenção nas ‘pequenices’ do dia-a-dia. A cidade releva o pão francês quentinho, saído do forno para o café da manhã. Subestima o café com bobagem da tarde, na pausa entre o dever e a responsabilidade. Ignora a importância do arroz com feijão, devorado na frente da TV, no horário da novela. Mas é na miudeza dos micro-atos cotidianos que bate o coração da metrópole que não pode, não quer e nem consegue parar...

 

Assim, mesmo desiludido e contrariado, o cidadão megatetrapolitano não abandona seu posto. No dilema entre o amor e o ódio pela cidade, carrega em si o desejo secreto de mudá-la. E fará de tudo para permanecer um pouco mais ao lado de tanta enormidade. Sobrevivendo... Custe o que custar.

 

 

   Maria Rita Barbi mora em uma megatetralópolis e tenta escrever no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas - quando consegue.



Escrito por Maria Rita Barbi às 19h36
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ZOOM da semana

 

 UOL

 

Fotos-legendas improváveis, pelo “chuchu do amor”, direto de um quintal de São Paulo:

 

§ “Será que agora todos vão me amar?”

§ “Será que agora todos vão querer me comer???”

§ “Será que agora eu viro paixão nacional????”

§ “Ainda não entendi porque o fotógrafo queria me girar ao contrário...”

§ “Só assim para eu sair bem na foto...”

§ “Amanhã, serei apenas um coração partido no meio de uma salada de alface...”

§ “Coração de chuchu, cabeça de água, alma sem sal. Mas tem quem goste...”

§ “Nabos, pepinos e abacaxis invadem a vida corporativa, mas os chuchus dominam a vida pública.”

§ “Sou chuchu, mas estou na mídia.”

§ “Aconteça o que acontecer... Na próxima eleição, me recuso a virar picolé de chuchu!”

 

 

 Maria Rita Barbi tem exercitado "pra chuchu" um certo espírito de porco e escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas. 

 

 

P.S: Novo texto na próxima “Terça Crônica”. Até lá!



Escrito por Maria Rita Barbi às 01h35
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ZOOM da semana

 

       La maja desnuda, Goya

Para aqueles que duvidaram que algum dia, neste singelo blog, pudesse reluzir a imagem de uma mulher despida... Com vocês, um genuíno nu artístico. Pendurado e admirado por milhões de pessoas, no Museo del Prado, em Madrid.

 

  Maria Rita Barbi tem exercitado um certo espírito de porco e escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas. 



Escrito por Maria Rita Barbi às 23h55
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ENSAIO SOBRE A INSÔNIA

Depois de passar toda uma existência tentando bater recordes de permanência em sono profundo, ela se deparou com sua primeira noite de insônia.

 

Encarou o vira pra cá e pra lá na cama com a dignidade de um bife à milanesa, aquecido em óleo frio. Fechou os olhos com força, para tentar imprimir uma escuridão maior que o breu do quarto fechado. Rezou. Rolou. Fingiu-se de morta. Cantarolou em pensamento uma música pra boi dormir... E lá pelas tantas da madrugada, quando parou de contar carneirinhos e passou a chamá-los pelo nome, decidiu que o melhor mesmo era se levantar.

 

Perambulou pela saleta do apartamento como um zumbi pós-moderno, vestindo um roupão de banho que encobria o pijama listrado. Hitchcock teria ficado orgulhoso com a maneira como ela procurou, com lentes objetivas, uma janela indiscreta para bisbilhotar. Mas não encontrou. No quarteirão da vizinhança, apenas o loft dela reluzia com a lanterna dos acordados.

 

Dirigiu-se para a cozinha. Fez chá de camomila e tomou gole por gole, bem devagar. Depois, atacou um leite morno... Permaneceu quieta por alguns segundos, esperando o sono chegar... Irritada, engoliu de uma só vez um litro e meio de suco de maracujá. Não conseguiu nem começar a “pescar”.

 

Decidiu partir para ações mais radicais.

 

Lavou a louça suja da pia, esfregou o fogão, botou o tapetinho pra lavar. Arrumou tudo tim tim por tim tim. E quando se deu conta, já estava no banheiro, de frente para o espelho, tentando se auto-hipnotizar. Pena que só conhecia uma técnica javanesa para ninar cães de pequeno porte, aprendida em passagem pelo Uruguai...

 

Por fim, pôs-se sentada no sofá. Ligou e desligou a TV, enrolou novelos de lã, arrumou fotos antigas em porta-retratos, manuseou livros. E ao folhear uma revista, uma sentença chamou atenção: “De acordo com estudo executado pela AMMA - Associação das Mulheres Metidas a Amantes, a falta de sono é a segunda maior responsável pelo término dos relacionamentos, perdendo apenas para a falta de sexo”. Ótimo. Era só o que lhe faltava. Como sina, ficaria insone, solteira e mal amada...

 

Diante de quadro tão melodramático, arrumou-se cedo e foi trabalhar.

 

As olheiras profundas que o corretivo não pôde esconder, somadas aos olhos vermelhos esbugalhados e ao ânimo de bicho preguiça em recesso parlamentar não deixavam dúvidas: o dia útil beiraria a produtividade zero. Mas era preciso labutar.

 

Começou pelos e-mails mais urgentes. Depois, atacou o relatório de vendas, com todos os seus números, metas, gráficos e cifrões. E quando estava lá pela quinta página, percebeu algo estranho. Sua sala não era mais sala. Havia expandido e virado um grande salão de festas. No lugar de sua mesa de trabalho, havia um buffet de docinhos e quitutes, prontos para serem devorados. O chefe, que até então era um ser compacto, havia esticado pelo menos trinta centímetros. Passeava gigantesco pelo local, cantarolando ordens, comendo tacos mexicanos e ostentando uma peruca nova –  de cor lilás... Ao fundo do ambiente, alguns colegas de trabalho travavam pequenas batalhas contra Tartarugas Ninja, devidamente camufladas de clientes japoneses. Ela esfregou os olhos. Uma, duas, três vezes. E quando admitiu que estava na ilusão onírica, vislumbrou ao fundo Morfeu. O reluzente deus dos sonhos esticava os braços para finalmente recebê-la...

 

 “HÃ HÃ...Bonito, hein, dona Matilda!!  O que a senhora tem feito da meia noite às cinco?”, gritou o chefe carrancudo, com o intuito de acordá-la. “Dormir no trabalho dá justa causa, sabia?!!!!!”, completou.

 

Ela babava na mesa, sem disfarçar. Tentou se explicar. Ainda assim, recebeu uma advertência formal, direta e reta do RH. O dia prosseguiu, escuro e nebuloso, embalado sem descanso, nem berço esplêndido.

 

No retorno para casa, ela voou para seus aposentos, a fim de capotar. Mas novamente não conseguiu.

 

Encarou o vira pra cá e pra lá na cama, sem dignidade alguma. Repetiu todos os procedimentos inúteis para tentar relaxar. E lá pelas tantas da madrugada, quando terminou a décima partida de pôquer com os carneirinhos, decidiu que o melhor mesmo era se levantar.

 

Caminhou até a saleta do apartamento como uma ‘noiva cadáver’, com seu pijama listrado. Sentou-se no sofá. Ligou e desligou a TV. Enrolou, enrolou, enrolou e resolveu trabalhar. Sacou da pasta de couro o relatório de vendas, com todos os seus números, metas, gráficos e cifrões. E quando estava lá pela quinta página, percebeu algo curioso. Sua saleta não era mais saleta. Estava ampliada, como o lounge de um bar. Ao fundo, em um palco, musas da MPB cantarolavam canções de ninar, ao lado de carros Transformers. Ela esfregou os olhos. Uma, duas, três vezes. E quando viu, estava linda, leve e solta, cavalgando um Pequeno Pônei azul, em direção aos braços de Morfeu...

 

 

   Maria Rita Barbi ficou com sono ao final do texto e escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas.

 



Escrito por Maria Rita Barbi às 13h51
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ZOOM da semana

 

  Folha Online

 

Fotos-legendas improváveis, pela multidão que comemorava o anúncio do Rio como sede das Olimpíadas de 2016:

§ “Quem foi?”

§ “Não fui eu...”

§ “Você vem sempre aqui?”

§ “Hoje eu como carne!”

§ “Benhêe... Põe mais água no feijão!”

§ “Benhêe... Deixa eu ligar pro seu primo argentino?”

§ “Agora eu compro minha casa...”

§ “Agora eu troco de emprego...”

§ “Agora eu troco de mulher...”

§ “Agora eu troco de sexo...”

§ “Sanduíche natural!!!!!!!!!! Quem quer sanduíche natural?!!!!!!!!!!”

§ “O que é que tá todo mundo comemorando, mesmo?”

§ “Fitinha benta do Bonfim pro Brasil ganhar nas Olimpíadas! É duas por cinco... É promoção, minha gente, paga cinco e leva duas...”

§ “Sabe o que minha bexiga tem de diferente da sua? A minha entorta, hehe!”

§ “Cadê o Pelé?”

§ “Cadê o Rei?”

§ “Onde está o Wally?”

 

Foto-legenda implausível, pela camisa 9 da seleção brasileira:

§ “Até lá, eu viro camisa 10!!!!!!!!!!!!!!!!”

 

Nova coluna ZOOM: um olhar improvável, implausível e impensável sobre imagens curiosas da semana. Todas as sextas, no “Quebrando o Salto”. Sugestões, críticas e opiniões? Deixe aqui seu comentário e/ou escreva para: miss.barbi@uol.com.br

 

  Maria Rita Barbi tem exercitado um certo espírito de porco e escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas. 



Escrito por Maria Rita Barbi às 14h14
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NÃO VAI CABER

 

 Ela chegou ao local combinado, na hora marcada. Estava nervosa. As expectativas quanto ao seu próprio desempenho eram grandes.

 

Ele atrasou alguns minutos. Apareceu todo suado, com óculos escuros e ar blasé, vestindo um jeans justo e uma jaqueta de couro surrada.

 

Ele cumprimentou a moça com profissionalismo, sem delongas. Definitivamente, ele era diferente de tudo aquilo que ela havia imaginado. Baixinho e um tanto rústico, ele não demorou nas preliminares e logo estava pronto para a ação.

 

Quando ela se deu conta da situação, olhou com espanto para ele e gritou ofegante:

- Não vai caber!

- Como não? Cabe sim... Garanto!

- Ai, moço... Esse jamantão, nesse buraquinho???

- Cabe! Fica tranqüila...

 

Mas ela não ficou. Começou a tremer e a morder os lábios em um ato nervoso. Ele percebeu e tentou quebrar o gelo:

- É sua primeira vez?

- Não. Já fiz uma vez antes... Com o meu namorado...

- E aí, como foi?

- Pra ser sincera?

- Claro.

- Fui um desastre total.

- Onde foi?

- Foi em um estacionamento vazio, perto da faculdade. Mas deu tudo errado...

- É normal não acertar ‘de cara’. Todo mundo se assusta mesmo da primeira vez...

- Todo mundo?

- É... TODO MUNDO. Já tive que lidar com essa ansiedade em mulheres de todas as idades... Inclusive em homens...

- Homens também?

- Você nem faz idéia...

 

Um pouco assustada, ela continuou em tom de desabafo:

- Sabe, moço, eu te chamei porque quero aprender. Me falaram que nesse assunto você é o melhor...

- Procuro ser bem profissional com meus clientes...

- Nessa profissão tem que ter muito tato, né?

- Muuuuuito! Senão, não rola...

- Pra ser sincera, não quero mais ouvir reclamações do meu namorado. É muito doloroso pra mim...

- Ah, depois de hoje, garanto que ele não reclamará mais...

 

Ela olhou para ele de novo, dessa vez com um olhar mais atrevido. E provocou:

- E se ralar?

- Não tem problema. Faz parte.

- É normal?

- É sim... Na verdade, isso depende da habilidade de cada um...

 

Um pouco mais relaxada, ela jogou o charme característico de quem busca aprovação:

- Mas... Será que cabe mesmo?

- Claro que cabe... Eu te ajudo...

- E como é melhor fazer?

- Se você preferir, eu te guio, ok?

- OK...

 

Assim, ele deu a partida para a atuação:

- Desengata com cuidado.

- Assim?

- Isso... Vem com ele um pouco para frente...

- Desse jeito?

- Perfeito... Agora, vira um pouquinho pra esquerda...

- Opa... Foi mal... Desculpe...

- Tudo bem... Continua nesse ritmo que tá ótimo...

- Assim?

- Isso... Pode virar um pouquinho...

- Tô sentindo a pegada...

- Embicou?

- Ôoooo...

- Agora, é só deslizar o possante...

 

Vira pra cá, vira pra lá, para frente, para trás e missão cumprida. Ela respirou aliviada:

- Só isso?

- Só. Você foi bem natural...

- Você achou?

- Claro.

- Ufa! Pensei que seria bem pior... E não é que coube mesmo?

- Viu só? Agora, é relaxar!...

 

Ela abriu um sorriso de satisfação. Sentiu-se poderosa. Definitivamente, ela havia encontrado uma maneira de recuperar sua auto-estima. Ele percebeu o entusiasmo da moça e sugeriu:

- Pronta para outra?

- Mas já?

- Ué... Já que estamos aqui... Vamos aproveitar!

- Você acha que devemos fazer quantas vezes mais?

- Quanto mais, melhor...

 

E assim, os dois passaram a tarde praticando. Ele, na instrução e ela, na execução. Ao final, exausta, ela vomitou a pergunta que não queria calar:

- Então, sinceramente... Você acha que vai dar pra eu passar?

- Passar na prova prática do DETRAN?

- Isso.

- Acho que sim.  

- Jura?

- Juro. Hoje você dominou a arte de fazer balizas – um dos itens de maior reprovação...

- Aêee... Então... Vamos comemorar a minha “quase” carteira de motorista?

 

   Maria Rita Barbi já tem carteira de motorista, quer tirar brevet de piloto de planador e escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas.



Escrito por Maria Rita Barbi às 23h24
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ZOOM da semana

   AFP/GETTY

 

 

Fotos-legendas pouco improváveis, pelo rotundo de terno:

§ “ Ma che belaaaa!!!”

§ “ Ôooo,  lá em casa!!!.”

§ “... (impublicável)...”

 

Fotos-legendas implausíveis, pelo altinho de terno:

§ “Agora eu solto os cachorros da Casa Branca em cima dele.”

§ “Vou dar porrada...”

§ “Pode deixar, que eu desconto nos acordos unilaterais...”

 

Fotos-legendas impensáveis, pela dama de vestido:

§ “Homens...”

§ “Querido, você pode ser achar o rei do macarrão à bolonhesa, mas meu marido é o dono do mundo...”

§ “É... Não é só a Carla Bruni quem tá podendo...”

 

 

Nova coluna ZOOM: um olhar improvável, implausível e impensável sobre imagens curiosas da semana. Todas as sextas, no “Quebrando o Salto”. Sugestões, críticas e opiniões? Deixe aqui seu comentário e/ou escreva para: miss.barbi@uol.com.br

 

 

  Maria Rita Barbi tem exercitado um certo espírito de porco e escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas. 

 

 



Escrito por Maria Rita Barbi às 09h41
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EMARANHADO DE PEQUENAS GRANDES COISAS

 

 

 

 

O rádio-relógio toca e marca: cinco e cinqüenta e cinco da manhã. Em um movimento semiconsciente, ela dá uma pancada no despertador, com a força característica de uma cortadora de lenha. “Só mais cinco minutos”, suspira. O suspiro leva a um cochilo de quase meia hora, interrompido bruscamente pelo despertar atrasado, marcado por uma taquicardia que mistura culpa e indignação.

 

Mais um dia nebuloso começa. Não pela chuva que ameaça assolar a cidade, mas pela tragédia anunciada no momento em que ela se depara face a face com o espelho: o cabelo desgrenhado formava uma nuvem emaranhada pós-modernista. “Não dá nem para pentear”, analisa. Sem tempo para lavar, condicionar ou modelar a juba, ela toma a decisão que alterará seu humor ao longo de todo o dia. E assim, prende a cabeleira em forma de coque, com a ajuda de muito gel. Definitivamente, o cabelo todo preso nunca favoreceu sua beleza. “Arghhhh”, esperneia. Mas é o jeito...

 

Ela coloca a primeira roupa que vê quando abre o armário. Não há mais tempo para se preocupar se o sapato combinará com a bolsa. “E que diferença isso faz, uma vez que o look já está arruinado pelo coque?”, resmunga baixinho.

 

Dez minutos para preparar o café para o marido, a lancheira para o filho e a ração para o cachorro. E para ela? Uma bela marmita de salada de chuchu com suco de clorofila - tentativa desesperada de se livrar daqueles malditos três quilos a mais. Claramente, o almoço será um misto de tortura e autopunição. “Toda mulher faz sacrifícios em prol da beleza”, se consola. “Pior é esse maldito coque...”, reclama.

 

Ônibus lotado, metrô abarrotado e minutos de aperto, para só então perceber que havia esquecido o celular em casa. Era a segunda vez na semana que fazia isso. Mas como nunca recebia ligações, a ausência do aparelho não caracterizava um grande problema. O mundo não sentia sua falta. E já estava acostumada com isso.

 

Sentindo-se pior do que sardinha em lata, ela chega ao trabalho diário, onde uma vez mais agüentará o chefe chato e clientes cada vez mais insatisfeitos. Isso não seria tão ruim, não fossem os infindáveis relatórios. Ah... Nada mais estressante do que preencher tabelas e mais tabelas inúteis, que terão a gaveta como destino final. “Mas é preciso pagar as contas”, argumenta.

 

Tudo parecia caminhar dentro da mesmice de sempre, com todas as previsibilidades da rotina diária. Afinal, ela padecia do automatismo voraz, que consome minutos, dias e décadas de uma vida.

 

Mas algo está diferente.  E ela se vê com uma estranha sensação de desconforto...

 

Angústia, irritação e incômodo. O pescoço trava. A cabeça dói. Parece que vai explodir... Ela sente uma pressão inexplicável, como se uma força estranha pudesse rachar o cocuruto em dois. “Algo está errado. Muito errado”, sussurra.

 

Seria esse seu momento derradeiro?

 

Os colegas de trabalho se apressam, levando-a até a enfermaria. No caminho, ela refaz, em câmera lenta, o filme de sua vida. Não havia nada muito interessante para relembrar. Certamente,  tal película nunca ganharia um Globo de Ouro. Muito menos um Oscar. Tristemente, percebeu que sua existência havia se transformado em uma sentença sem conteúdo nem vírgulas, à espera do inevitável ponto final.

 

Onde tinham ido parar os seus sonhos? Certamente, ficaram perdidos em meio a um emaranhado de pequenas grandes coisas...

 

“A senhora só teve um mal estar. Recomendo repouso pelo resto do dia”, delibera o médico. Ufa! Não foi dessa vez...

 

Ela olha para o céu, ainda com a cabeça dolorida e agradece pela segunda chance. A partir de agora, tudo será diferente. Com um novelo infinito de possibilidades em mãos, só falta encontrar a pontinha certa para desenrolar uma realidade melhor...

 

Ela chega em casa e encontra o filho vendo TV, já de volta da escola. Dá um abraço apertado no menino, como há muito não fazia. E ele, sem entender nada, puxa o coque da mãe, em uma mistura de brincadeira e provocação.

 

Ela dá um grito de dor. Depois, sente um profundo alívio. A dor de cabeça cede em alguns segundos, deixando um couro cabeludo levemente anestesiado. Teria sido o maldito coque apertado, o grande responsável pelo fatídico mal estar? Justamente o penteado que ela mais odiava e evitava fazer? Poderia um simples emaranhado de cabelo e grampos ser o estopim de tamanha tomada de consciência?

 

Bendito coque...

 

 

  Maria Rita Barbi raramente usa coque e escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas.



Escrito por Maria Rita Barbi às 17h54
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ZOOM da semana

 

 

Fotos-legendas improváveis, pelo grande quadrúpede peludo:

§ “Me dá um beijinho, vai! Camelei o dia todo!...”

§ “Não resisto a homem de barba...”

§ “Quero tirar sua touca... Depois jogar no chão, pisar em cima e chamar de lagartixa...”

§ “Eu acho que eu vi um gatinho!”

§ “All we need is love...”

 

Fotos-legendas implausíveis, pelo homem de preto:

§ “Sai pra lá! Você não faz meu tipo...”

§ “É pior do que bafo de bode...”

§ “Já disse que sou comprometido e minha mulher é ciumenta.”

§ “Se você chegar mais perto, eu te mostro a minha arma, hein.”

§ “Drogas, tô fora!”

 

E a pergunta que não quer calar: o que será que a mão que segurava a corda pensou?...

 

 

 

Nova coluna ZOOM: um olhar improvável, implausível e impensável sobre imagens curiosas da semana. Todas as sextas, no “Quebrando o Salto”. Sugestões, críticas e opiniões? Deixe aqui seu comentário e/ou escreva para: miss.barbi@uol.com.br

 

 

  Maria Rita Barbi tem exercitado um certo espírito de porco e escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas.



Escrito por Maria Rita Barbi às 01h50
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DEU ZEBRA! DEU ZEBRA!

O “QUEBRANDO O SALTO” COMPLETA SEU PRIMEIRO ANO NO AR...

 

 

 

Há exatos 365 dias, às 13 horas e cinco minutos de 22 de setembro de 2008, o texto “Sapos Alucinógenos” era postado neste espaço, inaugurando um dos blogs mais queridos entre os defensores dos ‘palitadores de dentes pessoais’ na Internet: o “Quebrando o Salto”.

 

Para esta escriba, o blog quebraria, antes de mais nada, um amargo jejum do mundo literário – algo em torno de uma década. Mas, apesar do meu entusiasmo inicial, apenas poucos amigos – os mais queridos – acreditaram que meu retorno às letras pudesse durar. Ainda mais no formato de blog... Para o restante do universo ao meu redor, a notícia do projeto “Quebrando o Salto” revelou uma alta dose de descrença:

 

§      “É só uma fase. Daqui a pouco, ela volta ao cultivo de orquídeas. Ou seriam tulipas?...”

§      “O quê? Um blog de crônicas?!! Desde quando a Barbi escreve crônicas?!! Aliás, desde quando ela escreve??? Inclusive, o que são crônicas?!!”

§      “Com a vida que ela leva, dou um mês pra esse ‘Deixando o Salto’ deixar de existir. É óbvio.”

§      “Já vi tudo. Isso aí vai virar um site de sacanagem. Dessas bobagens masoquistas com salto alto. Tô ligado... Eu é que não vou dar bola pra baixaria, não... Tô fora!”

§      “Qual é o objetivo desse blog? Fazer rir? Coisa mais inútil... Poupe-me!”

§      “Quebrando o Salto???!!! Mas o que é isso??? Um manifesto em prol da indústria de calçados?”

§       “Essa Ri é louca... Gente boa, mas doidinha que só... Ela não tem mais o que inventar?!! Por que ela não faz algo de útil e se alista como voluntária em uma missão de paz no Camboja?”

 

Para ser sincera, nem eu mesma acreditei que pudesse ir tão longe. Assim como os mais descrentes, no início eu também mantive um olhar um tanto embaçado e empacado em relação ao destino do blog. Mas a terapia bloguística surtiu um efeito profundo e inusitado. Quebrei muitos saltos... E assim, semana após semana, espremendo inspiração de todos os lugares e regada a doses cavalares de café na Brunella, os posts tomavam forma. Descobri o prazer de rir e me divertir enquanto escrevo, o que caracterizou o processo de criação de 92,7% dos textos já postados por aqui.

 

É claro que nem tudo foram flores. Alguns eventos me tiraram temporariamente do roteiro bloguístico. Como na recém adquirida gripe equina (versão piorada da gripe suína), que me deixou de molho por semanas. Ou no recente sequestro intelectual que sofri, a mando de pigmeus separatistas da quadrilha anti-humor, afastando-me do blog por mais de um mês. No final, o amor pela escrita venceu - e consegui fugir do cárcere da falta de entusiasmo, retornando ao porto seguro das letras...

 

Hoje, o “Quebrando o Salto” celebra seu primeiro aniversário. E só posso dizer aos meus queridos leitores que, apesar de todas as apostas contrárias, o blog sobreviveu. DEU ZEBRA! Uma grande zebra risonha, de dentões amarelados e casco alto.

 

Assim, com um ano de vida e já engatinhando, o “Quebrando o Salto” sai do período jurássico e finalmente entra em uma era pré-colombiana. Ou seja, finalmente serão incorporadas ao blog algumas mudanças, com o objetivo de fazer deste um espaço de mídia um tiquinho melhor. Mas nada revolucionário, nem tecnológico...

 

A partir de agora, a postagem de crônicas passa a acontecer às terças-feiras, ao invés das segundas (convenhamos: as postagens às segundas-feiras já tinham virado piada interna, mesmo). E os leitores ganharão uma segunda postagem semanal, onde encontrarão imagens curiosas da semana, comentadas às sextas-feiras.

 

Agradeço aos fãs do blog pelo apoio e carinho durante todo esse tempo. Meus parabéns são para vocês!

 

Um grande abraço,

 

Maria Rita.

 

 

  Maria Rita Barbi celebra o primeiro aniversário do blog e passará a escrever no “Quebrando o Salto” geralmente às terças e sextas.



Escrito por Maria Rita Barbi às 00h02
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ESCRAVOS DA LABUTA

Dia desses, enquanto participava de um conference call via computador, vivi um momento bizarro. Descobri, meio sem querer, que meu interlocutor falava diretamente do banheiro da empresa. Com o laptop no colo, ele havia adotado uma atitude multifuncional, dentro do cubículo apertado e azulejado. Diante da acústica que envolvia nossa conversa, ele acabou confessando, meio encabulado, que não poderia mais perder tempo. As exigências de seu cargo eram muito altas e a necessidade de estar sempre conectado era muito grande. Em sua rotina diária, já não havia mais espaço para o privilégio tranquilo dos momentos íntimos nas necessidades privadas. Assim, ainda que sentado no trono, transmitia ordens, enviava e-mails e realizava pesquisas na Internet. Para ele, tempo era mais que dinheiro. E os efeitos colaterais da feijoada de quarta-feira jamais poderiam interferir na gestão dos seus negócios...

 

Banda larga, redes sem fio, celulares de terceira geração, computadores que deitam, rolam, cantam e tocam sanfona. As tecnologias atuais, com suas diversas sopas de letrinhas, caminham para um mesmo fim: a conectividade com tudo e com todos, a qualquer hora, em qualquer lugar. Mas o quanto essas tecnologias, que deveriam nos auxiliar a trabalhar de forma mais eficaz, na realidade, apenas nos obrigam a trabalhar mais? O quanto já viramos reféns da filosofia “sempre online”?

 

Tenho observado um grupo específico de trabalhadores que já se tornou vítima dos novos ‘tempos modernos’. São seres ocupados demais, sempre apressados, levemente opacos, workaholics e armados com todos os tipos de aparatos tecnológicos. Alguns confundem os participantes desse grupo com capitalistas selvagens, pós nerds ou desajustados sociais. Mas, na verdade, eles são apenas os “escravos da labuta”.

 

Nasce uma nova tribo

Os ‘escravos da labuta’ estão sempre acessíveis e tecnologicamente conectados, por uma questão de obrigação. Esquecer o celular em casa é um sacrilégio. Demorar mais de um dia para responder um e-mail de trabalho, então, é desleixo, falta de profissionalismo e consideração. Não possuem tempo -nem ânimo - para socializar e há uma preocupação excessiva no estabelecimento inútil de prioridades, já que todas as suas tarefas são ‘pra ontem’. Produzem sob a mira certeira do chicote do chefe, que ao menor deslize, pode mandar para o espaço a tão sonhada promoção. Não acreditam no ‘ócio criativo’, mas sonham secretamente com atividades que envolvam diversão e relaxamento em uma praia paradisíaca.

 

Invasores de privacidade

As pessoas deste curioso grupo de trabalhadores possuem muita dificuldade com o significado do vernáculo ‘privacidade’. E acabam se tornando ora invadidos, ora invasores da intimidade alheia. Com tamanho problema de delimitação de espaço, tornam-se incompreendidos, mesmo pelas pessoas mais próximas. Uma amiga minha recentemente terminou um relacionamento de dois anos, só porque o namorado resolveu responder a um e-mail do seu celular Blackberry,  interrompendo a sessão semanal do ‘rala e rola’ amoroso. Ela, uma criatura insensível e exigente, não conseguiu compreender a importância do e-mail do chefe para o namorado, às duas da manhã, na madrugada de um sábado para um domingo. Coitado do par amoroso. Ele só queria trabalhar... Mas ela, pouco compreensiva, entendeu que a atitude da chefia foi abusiva e percebeu que seu namorado dificilmente colocaria limites na relação com a empresa. Adiantou-se e ela mesma colocou o limite na relação. Ele foi taxado por ela como imbecil. Ela foi taxada por ele como uma furiosa revolucionária anti-capitalista...

 

Confortados pelo humor

Há também os “escravos da labuta” que acreditam na máxima “rir é o melhor remédio.” Um conhecido meu conseguiu uma resposta engenhosa para as situações de invasão corporativa no seu núcleo familiar. Todas as vezes que se sentia coagido por telefonemas e e-mails corporativos indecentes aos finais de semana, colocava um nariz de palhaço. Era uma espécie de código estabelecido entre ele e a esposa, para que ela rapidamente identificasse seu dilema. Certa vez, ele passou uma festa inteira de família com o artefato, por conta de ligações constantes do diretor da empresa, que insistia em discutir um projeto importantíssimo. Caminhava pela sala, grudado ao aparelho celular e fazia caretas irônicas do alto de seu nariz de palhaço, o que fez com que todas as crianças da festa rissem. Resultado? Foi contratado como animador de festas infantis por um amigo de seu cunhado. E garantiu mais um troquinho nos fins de semana...

 

Falso descanso

Entre os “escravos da labuta”, há um número impressionante de pessoas com férias vencidas. E quando um elemento finalmente consegue seus dias de descanso, ele jamais pode perder contato com sua base de trabalho. Hoje, sair de férias sem checar e-mails e estar conectado, pode denotar um desvio de caráter profissional. Uma falta de pró-atividade e, porque não dizer, um desrespeito com os demais colegas, que ficaram segurando as buchas da firma. Afinal, quem foi que mandou o sortudo ir para aquela praia paradisíaca, regada a uma cervejinha gelada? Põe ele ‘pra ralar’...

 

Abusos à parte, nada supera o depoimento de um conhecido executivo de sucesso, que afirma que suas melhores férias dos últimos anos ocorreram durante sua estadia de quinze duas na UTI. Foi assim que ele percebeu o respeito que essas 3 letrinhas imprimem em uma empresa. Porque apenas ‘ir parar no hospital’ virou desculpa de motoboy – o tipo de situação corriqueira, como tomar banho ou pedir um pingado na padaria. Segundo o executivo, o período de recuperação de sua cirurgia de ponte de safena foi infinitamente melhor do que sua última viagem para Bora Bora, onde teve que concluir uma negociação com um fornecedor japonês, entre passeios de barco e estranhos drinks alcoólicos ornamentados. Teve seu tempo e espaço respeitados pelos colegas de trabalho. Não ouvia mais reclamações da ex-mulher. Convivia bem com o suave tilintar do bip de monitoramento cardíaco, celebrando a ausência completa de celular, micro, planilhas, prazos e problemas de projeto. Viveu o prazer de poder abrir e fechar os olhos conforme sua vontade. Ele fez de tudo para permanecer por ali o máximo de tempo possível, mas não conseguiu. Recebeu alta. E ficou frustrado por não ter conseguido subornar os médicos desaforados, para estender sua estadia no paraíso de tranquilidade...

 

Rebeldes em ação

A boa notícia é: nem tudo está perdido! Muitos membros dissidentes do “escravos da labuta” já espalham uma silenciosa e velada revolução trabalhista. Certa vez, no banheiro dos funcionários de um escritório para quem eu prestava serviços, observei um documento curiosíssimo, pregado na parede. Era um dicionário ‘de-para’ dos novos ‘tempos modernos’ em relação à época da escravatura:

 

QUANDO O CHEFE DIZ...

... NA VERDADE QUER DIZER:

“Tomando outro cafezinho?!”

“Já para o tronco!”

“Você terá laptop e celular da empresa.”

“Pegue já a pá e a enxada.”

“Isso era pra ontem.”          

“Cinqüenta chibatadas.”

“Você terá que trabalhar no fim de semana.”

“Mais dez chibatadas.”

“Você poderá usar o celular da empresa para poucas ligações pessoais.”

“Um pouco de farinha para o seu feijão.”

 

Afinal de contas, o que os empregados queriam dizer com o dicionário? Que tudo continuou nos mesmos moldes do tempo da escravidão? Claro que não. Desde lá, nossa sociedade já evoluiu muito... Em quesitos como os meios de transporte, por exemplo...

 

  Maria Rita Barbi esteve fora da órbita Internética por conta de uma mega gripe equina (versão piorada da gripe suína), mas sobreviveu e continuará escrevendo no “Quebrando o Salto” semanalmente, geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 12h43
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HARRY POTTER MANIA

 

Passei os últimos dias bem além da névoa poluída que encobre a metrópole paulistana. Perdida, sem GPS, em uma cidade do interior de São Paulo sem cinema nem shopping, imaginei que a febre causada pelo último filme da série Harry Potter estivesse reservada apenas ao lado urbano da civilização. Ledo engano.

 

Não importa conhecer ou não a saga, seus personagens ou sua autora. Está na moda falar sobre o universo que ronda o menino bruxo. Mais do que um fenômeno de mídia, a grife Harry Potter tem roubado a cena no dia-a-dia simples do pacato cidadão tupiniquim.

 

Não poderia deixar de retratar aqui algumas cenas bizarras que registrei na pacata cidade. Dignas pílulas populares do cotidiano de quem está antenado com a ‘Harry Potter mania’...

 

 

NO SUPERMERCADO

Duas senhoras, compradoras de brócolis e alfafa, observam curiosas uma aglomeração causada por uma ação de marketing de uma marca de margarina, que oferece degustação grátis, no corredor dos biscoitos...

- Aquela loirinha ali, da margarina, não é a escritora do Réri Pótis?

- Acho que não, né?

- Será?... Vai que é ela... Esse povo que fica famoso vive fazendo propaganda de tudo...

- Mas ela aqui, nesse fim de mundo?... E além do mais... Ela não é estrangeira?

- Não, imagina. A escritora do Réri Pótesis é a mulher do Paulo Coelho.

- Mulher do Paulo Coelho??? Tem certeza?

- Tenho, ué... Pra escrever de bruxo, só casada com mago, não é mesmo? Hahaha...

- Mas o Paulo Coelho é casado?

- É, ué...

- Com aquele rabicózinho no cabelo?

- É, ué... Por quê?

- Por nada, não... Mas se fosse marido meu, eu mandava cortar...

 

 

NO CAFÉ

A mulher, agitada, comenta com o marido, hipnotizado por uma partida de futebol na TV, as particularidades da história do bruxinho mais famoso do mundo.

- Benhê... Tô preocupada com essa história do Harry Potter...

- Por quê?

- Você viu que a própria autora declarou que o diretor da escola de magia era gay?

- Quem?

- O Dumbledore, amor. O diretor da escola de magia.

- Hã? O diretor da escola da Bia? Gay?

- Não, benhê... Presta atenção! O diretor da escola do Harry Potter.

- Harry Potter? Do que é que você está falando?

- Tô falando que a autora do livro do Harry Potter declarou que o diretor da escola imaginária do livro dela era gay...

- E?...

- Você não acha que isso pode ter um impacto educacional relevante na escolha sexual das nossas crianças?

- Não.

- Vocês homens, viu... Só se preocupam com o Brasileirão...

 

 

NA RODOVIÁRIA

Um cartaz bem grande, ao lado do guichê de uma grande companhia de ônibus, trazia a mensagem:

 

EXCURSÃO A SÃO PAULO PARA ASSISTIR O FILME DO HARRY POTTER.

Saída: terças e quintas às 18:30 hs

Chegada: mais de meia noite

Preço: R$ 50,00 (inclui ingresso sem pipoca)

ATENÇÃO: Proibida a entrada no ônibus de pessoas fantasiadas com os personagens malvados da história.

 

 

  Maria Rita Barbi admira a escritora J.K.Rowling e escreve no 'Quebrando o Salto' geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 14h33
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ALÉM DAS QUATRO PAREDES

 

 

Quando ele se deu conta que a relação estava séria, já era tarde demais. Toalhinha rosada no lavabo, pacotes de absorvente higiênico no banheiro, um urso de pelúcia em cima da cama e uma conta do celular dela, endereçada para o apê dele. Era impossível negar: tecnicamente, estavam morando juntos.

 

Mas ao contrário do que todos imaginavam, ele não surtou, não fugiu e nem negou sua nova situação. Curiosamente, pela primeira vez, Fabinho aceitava feliz o fato de dividir o dia-a-dia de seus lençóis com alguém, além das quatro paredes.

 

Os amigos dele levaram um choque. Como é que o metódico, são-paulino e almofadinha do Fabinho havia entrado, sem alardes, para o clube do cabresto?!

 

Paixão arrebatadora? Provável... De qualquer maneira, era difícil de acreditar que tamanho solteiro, pegador e bon vivant, havia pendurado as chuteiras de conquistador, em prol de uma única musa...

 

Seria a eleita uma mulher fascinante? Ou uma modelo-manequim-bailarina do castelo de Caras? Ou ainda uma brilhante e sexy cientista nuclear, prestes a salvar o mundo? Que nada...

 

Heloneida Rocha – a Helô – era uma mulher comum. Natural do interior de São Paulo, veio para a metrópole com o objetivo de vencer. Não primava pela inteligência, tampouco pela linguística. Falava “cambuquinha” de feijão e perguntava aonde deveria pegar o “ômbinus” para o Centro da cidade. Mas tinha curvas e retas de autopista alemã, com amortecimento de primeira, para ninguém botar defeito... Nem mesmo os amigos de Fabinho.

 

O moçoilo tricolor estava realmente disposto a investir em uma relação honesta, com uma pessoa sincera. Assim, generosamente, abriu o seu espaço e o seu lar para a amada...

 

E ela não perdeu tempo. Por todos os lados da casa, Helô se fazia notar. A começar pela calcinha dependurada no box do banheiro. Às vezes lavada, às vezes não. A toalha de banho molhada, em cima da cama, era outra marca registrada. Sem falar na mania de xeretar os pertences dele, revirando gavetas, celular, carteira e bolsos de paletós. Para muitos homens, essas seriam atitudes imperdoáveis. Mas para Fabinho, tais “pequenices” eram questões contornáveis para um relacionamento que poderia durar.

 

Consumidora compulsiva e levemente cleptomaníaca, Helô acordava gritando de madrugada, por conta de um pesadelo recorrente com o monstro do biscoito. Outras vezes, mastigava de boca aberta e ensaiava caras e bocas dignas de transtorno bipolar. Muitos homens terminariam relacionamentos de décadas por muito menos. Mas Fabinho entendia que tudo isso era fruto das múltiplas privações que ela havia passado na vida e ficava surpreso com o poder de cura do cafuné dela, ao final de um cansativo dia...

 

No olhar crítico dos amigos, aquele relacionamento tinha que acabar. Sem ritmo e sem rima, o affair deveria, no máximo, ter durado um parágrafo único, sem ponto de exclamação. Pediam, em coro, para Fabinho largá-la a qualquer custo. Mas de nada adiantava tamanha pressão.

 

Ele estava cego e surdo de amor. E somente uma falta muito grave seria capaz de afastá-la dele, sem chances de retornar.

 

E assim, arquitetando oportunidades para que a moça ficasse em casa sozinha e caísse em tentação, os amigos de Fabinho preencheram várias noites dele com idas aos jogos do Brasileirão.

 

No início, a estratégia não surtiu efeito. Mas depois... Em uma noite de quarta-feira, tudo passou a mudar.

 

Revoltado por assistir, mais uma vez, a um fraco desempenho do seu tricolor, Fabinho decidiu voltar para casa mais cedo, antes da partida terminar. E, ao abrir a porta do apê, ainda com as luzes da sala apagadas, ouviu algo suspeito no ar. Uns sons característicos, vindos do quarto, pareciam reveladores...

 

Foi se aproximando matreiro e surpreso, bem de mansinho, para pegá-la no flagra. Ele não poderia acreditar que ela estivesse fazendo aquilo. Não ela. Não sua Helô.

 

Ao se aproximar do batente da porta e olhar para dentro do quarto, a cena o chocou. Ele nunca poderia ter imaginado nada parecido. Fabinho ficou parado e imóvel, sustentando sua indignação. Enrolada em uma espécie de canga preta e branca, com a TV ligada, Helô gemia e vibrava como poucas. Gritava palavras de baixo calão, que ele nunca, jamais tinha ouvido. Uma revelação... Mas nada doeu mais do que vê-la bradar o nome do gordo, quando ele partiu para o ataque: “Vai Fenômeno!!!”

 

Em meio ao lençol amassado, entre cerveja, pipoca e guaraná, Helô assistia ao jogo do Corinthians, como torcedora fanática.

 

No armário dela, de portas abertas, jazia um pequeno altar corintiano, entre regatas e blusinhas de crochê, feitas à mão. Uma imagem de São Jorge repousava sobre uma camisa oficial dobrada, ao lado da flâmula do Timão.

 

Uma mega traição...

 

Placar final? Fim de relação. Helô poderia ser louca, desleixada, espaçosa, maníaca e limitada. Ainda assim, ele era capaz de amá-la. Mas uma corintiana, infiltrada na residência de um são-paulino roxo? Isso ele não poderia perdoar!!!  Mostrou o cartão vermelho e expulsou a torcedora de campo, de casa e da vida. E depois de tamanha conduta anti-esportiva, com o goleiro titular afastado e o técnico despedido, só restava a Fabinho chorar...

 

  Maria Rita Barbi é são-paulina, amiga de corintianos, usa verde dos palmeirenses e escreve no 'Quebrando o Salto' geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 18h11
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QUANDO A MENTIRA VIROU VERDADE...

 

 

 

Início da manhã de segunda-feira, 29 de junho. Na maior cidade do sul das Américas, assim como nos quatro cantos do globo, inúmeros fãs ainda lamentavam a morte do genial, único e um tanto perturbado Michael Jackson.

 

Enquanto isso, em um bairro secundário da metrópole que não pode parar, o estagiário de uma firma de seguros, ainda bêbado, cambaleava porta adentro de sua quitinete. A noitada de domingo havia se estendido pela madrugada. Embalado ao som de hits de sucesso do mito Jacko, o aspirante a ‘analista de risco’ capitalizou olhares, ao dançar os passinhos consagrados das coreografias de “Thriller” e “Billie Jean”. Não fosse pelo fora tomado da menina mais gata do universo, bem ao final dos 45 minutos do segundo tempo de ataque, a balada teria sido perfeita.

 

Bafo de chuteira, cabeção pesado e gosto de cabo de guarda-chuva. O efeito pós-farra bateu forte, enquanto ele caminhava, se arrastando, até sua minúscula cozinha. Ao deglutir uma fatia de pão com manteiga, acompanhado de uma xícara de café, ele pensou em como seria bom poder tirar o dia todo para descansar... E em uma atitude “Bad”, influenciada pelo excesso etílico na corrente sanguínea, decidiu acabar com seu “bom mocismo” habitual. Daria seu primeiro cano no trabalho. Dormiria o sono dos justos...  E então, quando se sentisse recuperado da ressaca, poderia passar o resto do dia a xavecar as menininhas na saída do metrô Consolação, até emplacar sua cantada fatal...

 

Assim, com a astúcia de um unicórnio sem chifres, o estagiário esperou o horário de entrada do chefe e, pontualmente, executou a ligação telefônica de seu celular pré-pago.

- Chefe?... Ééééé... Aqui é o Marquinho... Ééééé... Tô ligando pra dizer que hoje não vai dar pra ir trabalhar.

- Opa... O que é que houve?

- Ééééé...  É que eu vou participar de uma homenagem para o Michael Jackson.

- Homenagem para o Michael Jackson? Mas que diabos é isso?

- Então... Ééééé.. Tem um pessoal aí que está organizando essa parada. Uma amiga de uma prima, que é namorada de um cara que conhece um dos organizadores, me convidou. Sacou? Foi tudo meio em cima da hora... E eu ainda tô muito abalado psicologicamente com a morte do meu ídolo, né, o senhor sabe...

- Hmmm... Sei. E onde será isso?

- Bem... Ééééé... Lugar???... Hã... Deixa eu ver... Já sei... Vai ser lá na Paulista...

 

Estava na cara que aquele papo de homenagem era pura invenção do subalterno. De forma descarada, o estagiário tentava emplacar o famoso ‘migué’. A vontade imediata do chefe, claro, era de mandá-lo embora, sem conversa. Mas logo um pensamento sádico cruzou as sinapses do cérebro do dirigente: passaria a explorar o estagiário com tarefas chatíssimas e o faria trabalhar mais do que uma criança indonésia, em fábrica clandestina. Uma leve punição, pela tentativa de golpe contra a inteligência afiada do manda-chuva...

 

Depois de passada a raiva por tamanha petulância do estagiário, o chefe ponderou que a desculpa relacionada ao ídolo pop não era assim tão ruim. E concluiu que ele também poderia usá-la, para se livrar de mais uma furada familiar. Driblaria um enfadonho chá beneficente, organizado pela tia de sua esposa - uma senhora esnobe, rotunda e detentora do maior estoque privado de laquê da cidade. Resolveu ligar para sua mulher e pôr fim à tortura iminente.

- Querida, acho que não conseguirei te acompanhar hoje no chá... É que o pessoal aqui do escritório está organizando uma homenagem ao Michael Jackson... E... Bem... Eu sou o ‘cabeça’ do escritório, né? Não dá pra não ir...

-  Ah... Tá... Sei... Ok... Então, depois nos falamos...

 

Maior desculpa esfarrapada, impossível. Ela sabia que o esposo estava mentindo. Historicamente, ele sempre se sentiu como uma mosca branca nas reuniões que envolviam a família dela. Mas a mulher finalmente respirou aliviada. Definitivamente, ela não queria que o marido participasse de um evento onde seu amante, o dono de um bufê, trabalharia...

 

Em meio a petit fours, quiches e trufas, o amante da esposa do chefe aguardava ansioso para conhecer o seu rival. E tamanha foi a sua frustração, quando ele soube que seu algoz não compareceria ao chá beneficente, para participar, quem diria, de uma homenagem ao Michael Jackson... Para o amasiado gourmet, era inconcebível que alguém de sua equipe pudesse ter deixado passar a oportunidade de vender umas coxinhas extras, no tributo ao mito... Em um lampejo de fúria, o comerciante gastronômico chamou sua jovem assistente aos gritos, exigindo uma satisfação. A pobre moça recebeu uma bronca daquelas, sem entender nada. Como assim, um ato in memoriam ao Michael Jackson? Não estava sabendo de nada... Estaria ela tão fora dos acontecimentos? Logo ela, que era tida como a azeitona na empada da empresa?

 

Quando já estava à beira de colapsar em um choro nervoso, o celular da moça tocou. A assistente de bufê foi salva pelo toque de um pretendente, que ela havia conhecido em uma danceteria qualquer. O moçoilo, repórter recém-formado, nem tinha causado uma grande impressão inicial. Mas naquela altura dos acontecimentos, a ligação vinha a calhar. Uma espécie de injeção de auto-estima... Papo vai, papo vem e rapidamente ficou claro para ela que ele seria mais um candidato a equívoco, em sua longa lista sentimental. Ainda assim, ao final da conversa, ele insistiu em uma saída.

- O que você acha de nos encontrarmos para um café hoje no final da tarde?

- Olha, não vai dar... Preciso separar umas coxinhas para o pessoal vender na homenagem ao Michael Jackson.

- Homenagem ao Michael Jackson? Hoje? Onde?

- Olha, é meu patrão quem tá sabendo... Mas vamos fazer assim: a gente combina de tentar se falar por e-mail, pra gente marcar algo por fax dia desses, beleza? Beijo, me liga.

 

Se, por um lado, era óbvio que a assistente de bufê tinha despistado as investidas do  repórter, por outro, ele não poderia perder o gancho da notícia sobre o tributo ao Michael Jackson. Ele precisava checar a informação... Resolveu falar com o presidente de um fã clube do astro, em solo nacional, que se mostrou surpreso com os rumores da homenagem. Mas, diante da possibilidade de aparecer na mídia e viver seus 10 minutos de fama, o fanático fã acabou confirmando a realização do evento fictício. Para transformá-lo em realidade, o presidente do fã clube acionou rapidamente todos os recursos tecnológicos e internéticos à disposição. Usou listagem de e-mail, Messenger, Orkut, Twitter, boca-a-boca e até telefone sem fio, para disseminar a notícia da homenagem entre outros fãs... Marcou local, data e hora e rumou ao evento de banho tomado, com o pôster do ídolo a tiracolo, como manda o figurino.

 

Final de tarde de segunda-feira, 29 de junho. Pouco a pouco, um pequeno grupo de fãs de Michael Jackson passou a se aglomerar no vão livre do MASP. Uma manifestação tímida, mas real, que contava, ainda, com a presença de alguns jornalistas e parcos vendedores de coxinhas. Em pouco tempo, os jornais e portais da Internet anunciaram: “Fãs de Michael Jackson se reúnem na Avenida Paulista, para homenagear o ídolo.”

 

Enquanto isso, em um bairro secundário da metrópole que não pode parar, o estagiário da firma de seguros chegava feliz em casa, colecionando números de telefone, resultantes de suas cantadas bem sucedidas no metrô. Ao ler a notícia do tributo ao Jacko, na tela do computador, ficou pasmo. Percebeu que, sem querer, havia conseguido o álibi perfeito para seu dia de curtição. Seria obra do Santo do ‘Migué’? Caso do acaso? Ou uma mera piada do universo? Difícil saber... Mas quando a mentira virou verdade, o estagiário, enfim sóbrio, resolveu beber a noite toda para comemorar...

 

 

  Maria Rita Barbi aproveita para prestar uma homenagem ao rei do pop e escreve no 'Quebrando o Salto' geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 08h17
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LUZES DA RIBALTA

 

 

 

Ele chegou às 8 horas em ponto no trabalho. Nem um minuto a mais, nem um a menos. Atrasos não faziam parte do seu expediente competente, especialmente em dias de apresentação...

 

Ele era um artista de mão cheia. Aprendeu a ser ‘multi’, por uma demanda do mercado de trabalho. Fazia de tudo um pouco: analisava, sintetizava, negociava, comunicava... além, é claro, de fritar o peixe, olhar o gato e atuar. Ele, aliás, interpretava vários papéis de sucesso dentro da organização e era imbatível em suas performances para o público corporativo. Um gênio do tablado...

 

No camarim improvisado de sua sala, ele iniciou a preparação para mais um espetáculo. Muito café, exercícios de respiração e uma última revisão no roteiro. Tudo acertado. Estava pronto para realizar mais uma encenação.

 

Na sala de reuniões com um palco montado, as cortinas se moveram para anunciar o início do show. A platéia, lotada de executivos e seus auxiliares, era exigente. Reunia todo o ‘respeitável público’ da empresa... Mas tamanha concentração de poderosos não o amedrontava. Ele dominava o picadeiro organizacional, assim como um poeta domina as letras.

 

“Senhoras e senhores, bom dia!”

 

Ele iniciou a apresentação de maneira segura, com seu número clássico: o do Equilibrista. Atrelado ao cordão do sobe e desce do mercado financeiro, ele apontou os perigos imediatos das ações e deu a receita de como atravessar a turbulência, de forma cautelosa e bem sucedida. De fato, nada mais útil do que ter alguém que sabe como andar na corda bamba, sem cair, em épocas de crise... Foi aplaudido fortemente.

 

Em seguida, representou a figura do Contorcionista. Mostrou como flexibilizar e estender os tendões executivos para atravessar com elegância os terrenos pantanosos da concorrência, driblar difíceis situações de atendimento ao cliente e angariar fundos para o projeto solidário da empresa... Foi aplaudido novamente.

 

E assim, para cada novo ato, um personagem da trupe circense era apresentado de fato.

 

Encenado em um ato intermediário, o Domador de Feras era a personificação do homem que precisa matar vários leões por dia, para sobreviver na selva corporativa. Ao final da reprodução de uma cena de caçada, demonstrada através de um ‘estudo de caso’ para aumento do faturamento, ele urrou os números de sucesso das estratégias de guerrilha e mostrou a carcaça de suas presas, envolta em relatórios de desempenho favoráveis. Para completar, sugeriu fórmulas milagrosas para driblar o leão do imposto de renda... E foi ovacionado veementemente.

 

Mas nenhum outro personagem arrancou tantos suspiros da platéia quanto o Mágico. Quando ele sacou da cartola uma série de dados favoráveis de mercado, a audiência delirou. Ninguém se preocupou com a forma como aqueles dados tinham surgido, afinal, mágica não se discute. Entre a explanação de um gráfico e outro, ele ainda aproveitou para tirar da casaca uma bola de cristal e projetou um futuro próspero para o negócio. O presidente aprovou, a secretária anotou e um outro diretor vibrou. De fato, o público gostava de acreditar em uma realidade ilusória, apenas para saborear a sensação de sucesso iminente...

 

Àquela altura da apresentação, os expectadores aguardavam ansiosos por novidades, já que o desenvolvimento de qualquer empresa passa pelo conceito de ‘inovação’.

 

Ele definitivamente não queria interpretar o Malabarista das contas a pagar – um tipinho já muito batido. Muito menos queria pôr em cena o Homem-Bala das vendas – uma caricatura tão copiada por outros colaboradores da empresa, que já estava assim, meio ‘carne de vaca’. Na pressão por surpreender, ele decidiu revelar uma nova atração: o Palhaço.

 

De nariz vermelho a postos, o bufão deixou de lado as tradicionais brincadeiras engraçadinhas, para entoar um atípico discurso de motivação. Argumentou sobre a necessidade de manter a moral da equipe alta, mesmo em meio à rotina estressante do dia-a-dia. Mencionou, aos risos, os prazos de entrega impossíveis, as ligações de trabalho nas madrugadas e fins de semana, os feriados atados ao laptop da corporação e o abandono da vida pessoal em prol da empresa. 

 

A platéia estranhou. Tamanha ironia não deveria fazer parte da programação...

 

As luzes da ribalta deixaram de brilhar para o arlequim. E ele logo percebeu que no circo empresarial, revelar certas ‘palhaçadas’ é uma atitude inaceitável...

 

E assim, o gênio dos tablados deixou os holofotes da corporação, em um estalar de dedos. Removido por justa causa, sem apelação. Foi substituído imediatamente, sem dó, nem piedade. E observou amargamente que, no final das contas, tanto dentro quanto fora da lona circense, em geral, não importa quem são os atores que conduzem a exibição. O show tem que continuar...

 

  Maria Rita Barbi já caiu no conto da mulher barbada e escreve no 'Quebrando o Salto' geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 19h35
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DIA DOS NAMORADOS

Ele estava angustiado. Caminhava desgostoso para lá e para cá sem parar, na saleta de seu pequeno apartamento. Olhou para a mesa posta para dois, preparada para iluminação à vela. Alguns ingredientes para o jantar se perdiam na pia da cozinha, entre condimentos, tigelas e colheres de pau. Ele conferiu o horário no relógio. “É agora ou nunca”, pensou. Aquela era sua última chance. Depois, ficaria tarde demais... Pegou o telefone sem fio, titubeou um pouco, mas finalmente ligou para ela...

- Alô!

- Tetê? É o Gustavo...

- Fala, Tavinho. Tudo bem com você?

- Não. Não tô nada bem... Tetê, volta!

- Aiaiai... Já falamos sobre isso, Tavinho.

- Volta, Tetê. Tô pedindo, vai! Volta, por favor...

- Por que isso agora?

- Sem você eu fico pela metade...

- Vixe, tá doido?!!!

- Doido não... Meio perdido!

- Sei...

 

Decididamente, aquele papinho não levaria a nada. Ela o conhecia bem o suficiente para reconhecer suas táticas. Ele precisava jogar mais pesado...

- Tetê... Você sempre foi o meu braço direito, né?

- Bem, isso é verdade.

- Então... A casa nunca mais ficou a mesma sem você.

- Hummm...

- E as minhas roupas nunca mais foram tão bem cuidadas.

- Hummm...

- E as plantas nunca mais foram regadas e estão morrendo.

- Coitadinhas das plantinhas, Tavinho! E a orquídea lilás?

- Morreu, Tetê. De tristeza. Olha só a falta que você faz...

- Hãhã... Sei...

 

Sentindo que uma certa frente fria cruzava a linha do telefone, ele decidiu apelar para golpes mais baixos...

- Dez anos, Tetê. Durante dez anos você esteve ao meu lado. Agora, tenho que me virar sozinho... Lavar, passar, cozinhar. Você sabe como eu sou péssimo na cozinha, né?

- Isso não é novidade...

- Pois é... Pra mim, é tudo tão difícil! Tenho sofrido muito sem você, Tetê.

- Imagino. Alguém mimado como você, né Tavinho! Sofre mesmo...

- Mimado não, Tetê. Bem acostumado – é diferente. E tudo culpa sua, por sinal. Você sempre me tratou como um rei...

- Ah... Agora tá dando valor para o que perdeu, né?

- Não fala assim, Tetê... Sempre te dei o maior valor!... Te comprei a TV de 32 polegadas que você tanto queria, lembra? Paguei a viagem para o Paraguai... Dei aquela força pro seu irmão... Tudo isso por pura consideração.

- Tá bom, tá bom, Tavinho. Agora fala logo o que você quer de mim! E não me enrola!

- Quero que você volte, Tetê...

- Você sabe que eu não vou voltar. Agora desembucha logo e fala o que você realmente quer, ou eu vou desligar e acabar logo com essa conversa mole!

 

Por alguma razão, ela sempre foi blindada contra as tentativas de manipulação dele. Então, ele resolveu abrir o jogo de uma vez...

- Ok, Tetê. Preciso que você me ensine a fazer aquele seu famoso salmão marinado...

- Você quer a minha receita do salmão? Só isso?

- Só isso, Tetê...

- Então eu vou copiar a receita direitinho pra você e deixo na portaria do seu prédio essa semana.

- Não, não, Tetê! Preciso da receita agora! Quero fazer esse salmão ainda hoje, para o jantar...

- Você vai cozinhar hoje? No dia dos namorados, Tavinho?

- É... Vou tentar...

- ...

 

Um silêncio profundo tomou conta do lado da linha dela. Ela não esperava uma atitude assim dele...

- Quem é ela, Tavinho?

- Ela quem?

- Quem é a lambisgóia com quem você está saindo e pra quem vai cozinhar?

- Não começa, Tetê!... O nome dela é Silvinha.

- Não vai me dizer que é aquela magricela antipática, que vivia pendurada no celular.

- Não, aquela era a Mari... Mas já acabou. A Silvinha é um amor de pessoa. Até você poderia vir a gostar dela...

- Continua na rotatividade, Tavinho?

- Já parei, Tetê. Aquilo foi só uma fase. Com a Silvinha é diferente. Agora é pra valer. Quero casar e ter filhos. Acho que é ela, Tetê - a mulher dos meus sonhos. E hoje, vou dizer isso tudo pra ela, com o salmão marinado como testemunha...

 

Ela travou o choro e uma bola de emoção ficou presa na garganta. Ela queria o melhor para ele, do fundo da alma. Para ela, ele finalmente tinha tomado juízo. E continuou a conversa com uma voz cortada e molhada, de quem confunde lágrima com saliva...

- Senti firmeza hein,Tavinho! Nunca ouvi você falar assim de ninguém. Gostei de ver!

- Sabe, Tetê... Pra mim, você sempre foi muito mais do que uma empregada. Você sempre cuidou de mim como uma segunda mãe! Você é praticamente da minha família... E eu queria preparar para a Sil a comida que eu mais gosto no mundo – o seu divino salmão...

- Não fala assim que eu choro, moleque! Toma nota aí, que eu vou te passar a receita tim tim por tim tim. Essa Silvinha vai ver só do que o meu menino é capaz!

 

Ele respirou aliviado. Sentiu-se confortado e amparado. E pensou em como é bom poder contar com pessoas honradas na vida... Depois de ter aprendido a receita de trás para frente, restava a ele apenas uma última tentativa...

- Só mais uma coisa, Tetê... Você acha que algum dia você voltará a trabalhar aqui em casa?...

- Tô aposentada, meu filho! Já não tenho a mesma disposição de antes. As pernas doem, as costas travam, fica difícil fazer a limpeza pesada. Mas quem sabe um dia, quando você tiver seus bacurizinhos, eu não dou uma forcinha pra você e essa tal de Silvinha?

- Tomara, Tetê... Tomara!

 

 

  Maria Rita Barbi agradece a todas as Tetês de sua jornada pela dedicação e carinho incondicionais e escreve no 'Quebrando o Salto' geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 18h59
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ARRAIÁ METROPOLITANO

 

Ela mandou fazer um vestido de chita bem bonito. Daria adeus aos tailleurs bem cortados e ao salto alto de bico fino. Pelo menos por algumas horas, ela relembraria suas raízes interioranas, vibraria com as coloridas bandeirolas e ouviria as músicas de quadrilha que marcaram seus melhores momentos de infância.

 

Finalmente, trocaria o corre-corre do mercado financeiro pelo pula-pula de uma fogueira de São João. Anarriê!

 

 

Já fazia mais de dez anos que ela havia se mudado para a cidade grande e era a primeira vez que participaria de um arraial metropolitano. Mas a vontade de escapar da turbulência e reviver os valores simples da vida era tanta, que ela nem ligou para o lugar onde a festa junina aconteceria: no pátio de um estacionamento semi-cimentado de um clube qualquer. Com sorte, ouviria Luiz Gonzaga e sua sanfona mágica, pensou...

 

Caminho da roça!

 

Chegou ao evento vestida a caráter da cabeça aos pés. Além do vestido rodado, sob medida, portava longas e falsas tranças negras espetadas em um chapéu de palha meio amassado, decorado com uma fita de cetim. Uma meia calça longa de listras vermelhas compunha o visual, finalizado com um sapato preto de verniz no estilo ‘boneca’. A maquiagem também seguiu o padrão ‘roceira’ e não dispensou as famosas pintinhas negras em cima do blush avermelhado na bochecha. Estava uma típica caipirinha de quadrilha. Sem exageros.

 

Para a felicidade de suas gorduras localizadas, ela logo avistou as barraquinhas de comida...

 

Paçoca, pé de moleque, pinhão cozido, bolo de fubá, pamonha e doce de leite. Decidiu que comeria, de uma tacada só, todos os quitutes da festa. Seria o fim de sua tortura calórica diária e o término definitivo de uma breve dieta macrobiótica xiita. E ai de quem reclamasse das doses cavalares de quentão, acompanhadas, por que não, de colheradas generosas de arroz doce... Êta trem bão!

 

E foi assim, atracada a uma espiga de milho verde, que ela recebeu seu primeiro correio elegante. Bela prática de xaveco de uma era pré-celular, imortalizada nos arrasta-pés juninos...

 

Ela abriu o bilhete depressa  e se deparou com algo inusitado. Não havia frases, nem letras escritas. No confinado espaço de papel, pairava o desenho de um olho, feito às pressas com caneta azul. Hummm... O que aquilo queria dizer? Tô de olho em você? Procure e acharás? Gostei dos seus cílios? Mil palavras poderiam caber naquela figura. Um enigma intrigante...

 

Procurou por um suposto remetente. Olhou para um lado, olhou para o outro e nada. Ela estava no meio de um formigueiro de gente com chapéu no estilo caubói, em trajes copiados dos rodeios. E  ninguém pareceu se manifestar...

 

Perdida em meio a um pote de canjica, recebeu seu segundo correio elegante. Agora, havia o desenho de uma boca... Quero falar com você? Me dá um beijo? O batom está borrado? Qual era o significado daquela imagem? Mistério...

 

Por fim, enquanto devorava uma queijadinha, o terceiro correio elegante chegou, mostrando o desenho de um coração ensanguentado. Quem, afinal, ela havia flechado?

 

Só então reparou que alguém acenava para ela ao longe. Lá estava seu admirador secreto, meio acanhado, parado na frente da barraca da ‘pescaria’. Um homem de jeito rústico, com chapéu de palha, camisa xadrez, calça remendada e bigodinho ralo. Fora ela, só ele havia se vestido como um digno caipira para a festa. Ela logo viu que ele respeitava as tradições de raiz e possuía os valores que ela tanto apreciava. Ele parecia ser tudo o que ela havia pedido a Santo Antonio nas infindáveis simpatias de amor!...

 

Vinho quente pra lá, maçã do amor pra cá e ela finalmente tomou coragem para se aproximar do mancebo. Ele abriu um sorriso envergonhado. Ela puxou conversa com ele, ressaltando um traço marcante de sua caracterização:

- Oi... Adorei sua roupa... Agora me conta... Como você conseguiu pintar seus dentes de preto de um jeito tão perfeitinho assim, sem borrar?

- Óia... Tá pintado não, moça...

- Esse preto é do dente mesmo?!!!! E todos os bilhetes com os desenhos???

- É que eu num sei iscrevê não, moça... Mái num é que funcionô???

 

Ela nem precisou pular a fogueira para sair chamuscada. Depois de anos na metrópole, já não conseguiria se envolver com um autêntico homem do campo. Percebeu como a vida na capital muda as crenças das pessoas... Tudo bem... Bola pra frente... Atacaria mais uma cestinha de pasteizinhos de queijo e voltaria rolando para casa...

 

 

 

  Maria Rita Barbi é fã de arroz doce e escreve no “Quebrando o Salto” geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 15h29
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ATLETA DE SOFÁ

 

Dagoberto tentou se levantar, mas não conseguiu. As nádegas pareciam grudadas na poltrona e o peso de seu corpo era tanto, que ele mal podia se mexer.

 

Olhou para sua figura corpulenta e se impressionou com o que viu. Uma cerveja ‘long neck’ na mão esquerda acompanhava um punhado de ‘fritozitos’ na mão direita. Uma encardida mancha de pudim de leite, na camiseta rasgada, combinava em tom e estilo com uma imunda meia de lã, furada no dedão. Para completar, uma grande cueca suja fazia as vezes de calção...

 

Controle remoto a postos. TV sintonizada em volume máximo, no canal de esportes. Não havia como negar. Por caminhos inexplicáveis, Dagoberto, o maratonista padrão, havia se transformado em Ogroberto, o atleta de sofá.

 

 

   Ogroberto em ação...

 

Assim como em um conto de fadas às avessas, o príncipe das pistas de corrida agora reinava como o sapo da sala de estar...

 

Londres, Berlin, Boston, Chicago e Nova York. Dagoberto havia corrido as maiores maratonas do mundo, a bordo de um belo corpo esguio, forte e musculoso. No entanto, naquele exato momento, padecia de uma limitação vexatória de movimentos.

 

Tentou gritar. Queria chamar sua doce Zuleika para acudi-lo. Com muito esforço, o grito saiu mirrado no começo e ganhou força no final. Mas ninguém atendeu. De certo, ela o havia deixado. “Uma mulher daquele porte e elegância jamais admitiria um porcão a seu lado...”, pensou.

 

Como ele pôde passar tanto tempo sem se dar conta de tamanha transformação? Que espécie de transe ele havia vivido? Seria ele vítima de uma hipnose, resultado de horas a fio na frente da televisão? Ou seria a conseqüência dos inúmeros desafetos, desilusões e decepções na vida?

 

De fato, apesar de toda dedicação para se tornar um grande corredor, Dagoberto não era habituado ao sucesso. E tudo o que ele mais queria na vida era vencer. Sonhava em pisar nos degraus do pódio, vendo a bandeira verde e amarela sendo erguida ao som do hino nacional. No fundo, no fundo, Dagoberto queria ser ovacionado entre os campeões...

 

Porém, nunca chegou lá. Treinava como um titã e corria no pelotão destacado, entre a elite do esporte. Iniciava bem o percurso, imprimia um bom ritmo nas passadas, mas algo o impedia de cruzar a linha de chegada entre os melhores. Era sempre a mesma cena, com a mesma desaceleração, na mesma decadência... Uma ‘maldição’...

 

Mas agora tudo havia mudado. E para pior. Dagoberto percebeu que ser um ogro era infinitamente mais doloroso do que ser um atleta frustrado por nunca ter sentido uma coroa de louros, ou mesmo uma medalha balançando no peito...

 

Determinado, decidiu que sairia dessa. Usaria sua condição lastimável de chegada ao fundo do poço como uma catapulta. Alçaria voo em busca de dias melhores e finalmente alcançaria épocas de glória.

 

Sentiu que uma presença se aproximou de suas costas. Uma luz divina, talvez... Confiante, fechou os olhos e prestou atenção na voz celestial que balbuciava sons oníricos ao pé de seu ouvido: “Dagô... Acorda, querido! Acorda! Senão, você vai se atrasar para a maratona!”

 

Era Zuleika, que despertava Dagoberto de seu tosco pesadelo. O maratonista abriu os olhos assustado e conferiu rapidamente sua aparência. A barriga havia sumido. O corpo estava sarado. Ufa! Havia voltado a sua forma original.

 

Dagoberto seguiria para mais uma prova. Uma meia maratona, só para treinar. Dessa vez, porém, estava confiante. Vislumbrava chances de vitória. A ‘maldição’ estava quebrada. Afinal, havia deixado seus medos de ogro para trás...

 

  Maria Rita Barbi não é uma atleta de sofá e escreve no 'Quebrando o Salto' geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 19h07
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EU COISO, TU COISAS, ELE COISA

 

Deu branco? Esqueceu um nome? Perdeu uma palavra? Não se desespere. Faça como a maioria dos brasileiros: apele para ‘a coisa’ - e siga feliz.

 

Maior coringa da língua portuguesa, o substantivo ‘coisa’ substitui inúmeros vocábulos e aceita derivativos e flexões. Quando entra em cena, vira até verbo e o ‘coisar’ passa a ser conjugado em diversos tempos, gêneros e modos.

 

‘Coisinha’, ‘coisada’, ‘coisou’. Não importa o quão absurdo seja o seu uso, geralmente conseguimos entender o que cada ‘coisa’ significa...

- Que coisa! O professor de português atrasou de novo?

- Atrasou. Mas já deve estar ‘coisando’ por aí...

 

  O verbo 'coisar', conjugado na prática...

 

Em casa, na rua, no trânsito, na balada. Não importa onde, ‘a coisa’ ronda o dia-a-dia dos nossos diálogos. Sempre. Mas é no trabalho que, de vez em quando, ‘a coisa pega’.

- Pessoal, tenho um comunicado importante da diretoria.

- Xiiiii, lá vem ‘coisa’...

 

Auxiliadora nas horas de aperto, a expressão ‘coisal’, em geral, é dita naturalmente, sem esforço, quando menos se espera.

- Tá difícil de abrir esse pote de geléia, princesa?

- Pois é, moço. ‘Coisa’ aí pra mim, vai...

- ‘Coiso’ nada. Olha o tamanhão desse seu muque e olha o tamanhinho do meu...

 

Em muitas situações, ‘a coisa’ pode indicar um tom de modéstia, ainda que este seja meramente ilusório.

- Querido, amei o presente!

- Imagina! É só uma coisinha...

- Uma coisinha??? Com motor flex, banco de couro e teto solar???

- Você merece coisa ainda melhor...

 

Tem gente que ‘coisa’ muito nessa vida. Mas há pessoas que ‘coisam’ muito mais que outras. ‘Coisam’ tanto, que chegam até a irritar.

- Benhê... Pega aquela coisa pra mim?

- Qual? A azul?

- Não... Aquela coisa ali, ó!

- Qual coisa? A caixa amarela?

- Nãoooooo. Aquela coisinha lá, não tá vendo?

- Não, não tô.

- Aquela coisiquinha, de pôr na mesa.

- A toalha?

- Não.

- O saleiro?

- Também não... É aquela coisinha redondinha, olha lá!

- Cansei! Se vira e pega você.

- Credo! Você está muito chato hoje, hein!?

- Não estou, não. É que você ‘coisou’ a minha paciência...

 

Papo vai, papo vem e tem certas coisas que podem ganhar significados sutis em conversas de foro mais íntimo.

- O que aconteceu com aquele moço que você conheceu na festa?

- A gente saiu algumas vezes.

- E você já ‘coisou’ com ele?

- Éééé... Bem... Coisei... Mas só um pouquinho...

 

Convenhamos: por mais difícil que seja admitir, todo mundo já ‘coisou’ um dia. Até mesmo os mais eruditos já se viram entre uma coisa e outra.

- Algo errado em minha tese, honorável professor-doutor?

- Coisa alguma, prezado mestrando.

 

Da abolição do português clássico ao caos, há aqueles que adotaram definitivamente uma língua em paralelo, gutural e quase tribal: a língua ‘coisal’.

- Sabe o negocinho da coisinha?

- O que fica do lado do trequinho?

- Não. Aquilo é a bagacinha da coisinha...

 

Mas nem só de mazelas vive ‘a coisa’ na língua portuguesa. Dependendo da circunstância, ela pode assumir um caráter filosófico e, por que não dizer, psicológico. É o caso onde a pessoa não fala necessariamente coisa com coisa, mas consola e leva a refletir.

- A coisa tá preta lá no escritório.

- Tenha calma. Cada coisa no seu tempo, cada coisa no seu lugar. É preciso respeitar a ordem das coisas...

 

Na prática, quem ‘coisa’ uma vez e gosta, acaba ‘coisando’ sempre. E pode acabar ‘coisificando’ o mundo ao seu redor – incluindo as pessoas.

- Sabe a ‘Coisinha’?

- Quem? Aquela, que tinha bigode?

- Não. Uma que era vegetariana.

- Sei. A caolha, de pescoço curto, que tinha aquela ‘coisa’ no nariz?

- Isso. Foi parar no hospital. Atropelada por um carrinho de cachorro quente...

- Que coisa!

 

Por fim, não dá para ficar imune às coisas da vida. ‘Coisando’ ou não, ‘a coisa’ é mais do que um modismo que veio para ficar. Já virou um patrimônio lingüístico popular e inquestionável... E você: já ‘coisou’ hoje?

 

 

  Maria Rita Barbi vive 'coisando' e escreve no 'Quebrando o Salto' geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 13h30
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ENTRE PORCOS E ESPIRROS

 

Ela parou o México. Abalou os Estados Unidos, o Canadá e rodou mais de 20 países. Em turnê mundial, com cobertura jornalística digna de pop star, ela mata e preocupa nações e governos. Conhecida popularmente como gripe suína, a influenza A  H1N1 é a terrorista da vez.  

 

 

 

 

 Xô, gripe suína!

 

Bem antes de ter atingido o solo tupiniquim, a gripe suína já havia feito sua primeira vítima no cenário urbano nacional: o gripado.

 

Pertencente a uma categoria enfraquecida, sem ânimo e convalescente, qualquer portador de uma simples gripe virou foco de atenção, ou melhor, de transmissão. Nas ruas, no metrô, na fila do banco ou no cinema, o gripado é ao mesmo tempo um alvo e uma ameaça. Objeto de comentários jocosos. Um pária...

 

A cada espirro ou fungada de nariz, olhares curiosos antecipam a pergunta que não quer calar: ‘seria o enfermo um portador da gripe suína no Brasil?’...

 

De fato, a vida para os acometidos por gripe, do Oiapoque ao Chuí, não tem sido fácil nas últimas semanas. Em épocas de pandemia mundial, nem a família perdoa. Qualquer sintoma pode tornar-se motivo para insinuações.

- Atchim!

- Xi, filha. Vai ver que é a gripe suína.

- Impossível, pai.

- Sei não. Do jeito que sua vida anda uma novela mexicana...

 

Debaixo de pilhas de lenços de papel devidamente assoados, muitos gripados padecem à mercê de tratamentos alternativos. E sempre existe uma tia chata, metida a curandeira, que tentará convencer o gripado a ingerir um coquetel letal de substâncias “orgânicas e naturais”, sob o pretexto de ser uma “receita caseira de família contra gripes matadoras”, como no caso da suína.

- Presta atenção! Você pega um punhado de jenipapo, outro de boldo, mistura um dente de alho, duas colheres de chá de gengibre, uma unha de gato, quatro espinhos de roseira, uma pena de ganso, meia maçã desidratada e junta um pouco de água benta. Adiciona 2 ovos de codorna com casca, ferve tudo em uma panela a 100°C, côa a mistura, deixa esfriar por meia hora e toma tudo de uma vez, em três goles. Mas tem que beber em três goles, senão não funciona, hein!...

 

O gripado deixou de ser um simples indivíduo de nariz escorrendo, tosse, febre e dores musculares, para se tornar um suspeito em potencial. Principalmente se o virulento estiver dando sopa nos arredores de clínicas médicas ou hospitais. Há sempre inúmeros profissionais de plantão, loucos para impressionar os membros mais engajados da Organização Mundial de Saúde, na luta contra a gripe suína.

- Dona Gertrudes, encaminhe aquele paciente para a triagem.

- Qual, doutor? O de camisa azul?

- Exato.

- Aquele, que tossiu do outro lado da rua, andando na calçada?

- Correto. Máscara nele!

 

Mas é no ambiente profissional que as piadas mais infames contra os gripados normalmente acontecem. O nariz vermelho, entupido e escorrendo entre um e outro espirro, fatalmente se tornará o estopim de chacotas entre os colegas de trabalho. Inclusive os da área de informática.

- O Asdrúbal parece bem mal da gripe hoje, né? Não pára de espirrar...

- Disse que teve febre, náusea, diarréia...

- Será que ele pegou o H1N1?

- Não sei. Vamos rodar um anti-vírus nele, só por precaução?...

 

O gripado engraçadinho também tem sofrido retaliações de pessoas pouco abertas ao lado humorístico da gripe suína:

- Oiii...Vai gripe aí?

- Vai você...

 

Não basta apenas o mal estar gerado pelo ataque de uma colônia de vírus da gripe, que derruba até o mais brutamonte dos lutadores de sumô. No caso dos gripados da classe educadora, por exemplo, o desconforto é bem mais embaixo. Eles são obrigados a conviver todos os dias com uma doença ainda mais crônica, aparentemente sem cura, causada pelo “vírus letral”. Infectando uma parcela cada vez maior da classe estudantil, o “vírus letral” destrói a comunicação através da escrita e se hospeda em analfabetos funcionais. É altamente contagioso e tão ou mais poderoso que um vírus letal, em um país de ensino cada vez mais decadente. É para nenhuma gripe suína botar defeito...

 

Catarros à parte, alguns poucos gripados seguem felizes com a ascensão do anonimato à fama. É o caso daqueles que conseguiram transformar suas gripes em oportunidade.

- Agora que estou quase famoso, quero te convidar pra jantar.

- Ah, mas você ainda não é uma celebridade.

- Deixa só eu provar que essa gripe é a suína...

 

Coriza cá, assoada lá e mais uma caixa de lenços de papel é utilizada. Sem perceber direito seu estado físico, a categoria da gripada moderna sobrevive em meio a um dia lotado de atividades. Cidadã, amante, esposa e profissional em três turnos, a gripe suína só se torna uma realidade de vida, para essa categoria de mulher, quando chega o momento de exercer papéis determinantes: mãe e educadora.

- Manhê... A gente pega gripe suína beijando porco?

- Não, meu filho.

- E comendo presunto?

- Também não, meu filho.

- E a gripe suína mata?

- Mata sim, meu filho. Várias pessoas já morreram no mundo.

- Nãooooo mãe. Eu quero saber se a gripe suína mata porco.

- Não, meu filho. A gripe suína só mata pessoas.

- Ufa, ainda bem que essa gripe só mata gente, né mãe. Coitados dos porquinhos!

 

E assim caminha a humanidade: entre porcos e espirros. Agora, é só torcer para que essa pandemia não assole nosso Brasil varonil. Xô, gripe suína!

 

   Maria Rita Barbi padeceu com uma gripe não suína e escreve no 'Quebrando o Salto' geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 15h59
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