QUEBRANDO O SALTO


Sexta-feira 13

 

Geison não era supersticioso, nem acreditava em crendices populares. Mas sua sexta-feira 13 começou com o pé esquerdo. Literalmente. Tudo por conta de uma topada do dedão no pé da cama, logo cedo. Azar? Não. Sono mesmo...

 

A ida para o trabalho seguiu o roteiro de um massacre, sem serra elétrica. Ônibus lotado, corpos apinhados e exalando o bodum característico de quem usou a mesma roupa para trabalhar todos os dias da semana. O ar da condução parecia mais denso do que de costume. Culpa do dia 13? Negativo. Certamente o banho de povo estava potencializado pelo calor descomunal que atingia a metrópole...

 

Ao tentar passar pela catraca, Geison percebeu que estava sem seu bilhete único. Havia esquecido o bendito no bolso de outra calça. O jeito era recorrer à carteira mesmo. Mas descobriu que a mesma continha apenas asas de moscas, um cartão de débito, documentos e papéis inúteis. E nenhum trocado. Assim, o moçoilo foi ejetado do transporte público pelo cobrador. Falta de sorte? De jeito nenhum. Cabeça de vento, pura e simples...

 

Correu para uma loja de conveniências próxima ao escritório, onde sabia que havia um banco 24 horas, para sacar um dinheirinho. Chegando lá, uma imagem o intrigou: uma escada aberta estava posicionada bem em frente ao caixa eletrônico. Algo bizarro. Mas com uma explicação: o pessoal da loja estava trocando uma lâmpada queimada. De qualquer forma, seria preciso passar por debaixo da escada para utilizar o caixa. Muitos desistiriam da idéia, por acharem que isso daria azar. Mas Geison não acreditava nessas bobagens...

 

 Imagem da escada na frente do caixa eletrônico, no interior da loja de conveniências

 

Ao tentar realizar o saque do dinheiro, porém, a máquina estranhamente não funcionou. Rejeitou seu cartão, recusando-se a lê-lo. Olho gordo? Fora de cogitação. Provavelmente o caixa estava fora de sistema - coisa mais do que comum hoje em dia...

 

A onda de esquisitices matutinas não parou por aí.

 

Ao pisar fora da loja de conveniências, Geison cruzou com um gato preto. No instante seguinte, foi atropelado por uma bicicleta conduzida por um caolho desdentado. Ele tombou para cá, o ciclista tombou para lá, mas no final, não houve vítimas nem escoriações. Mandinga? Imagina. Pura falta de coordenação do primata capenga que dirigia a bike...

 

Geison sacudiu a poeira e apressou-se para não chegar atrasado ao trabalho. Quando virou a esquina, deu de cara com uma cigana, que quis ler o seu destino. Ele recusou a oferta veementemente. Então, ouviu da mulher um longo xingatório, que incluía menções de amor, parte em português, parte em um dialeto desconhecido. Praga? Nem pensar. Essa era mais uma manobra psicológica de uma sobrevivente cosmopolita, tentando arrecadar alguns reais de cidadãos comuns...

 

Geison retomou a compostura e rumou para o escritório. O dia estava apenas começando e ele seguia desacreditando nas superstições que rondavam a sexta-feira 13.

 

A manhã seguiu sem outros sustos. Mas o período da tarde reservou uma surpresa para nosso herói... De volta de um spa, com 30 quilos a menos e sentindo-se a mulher mais sexy do universo, a chefe de 150 quilos não se conteve. Avançou o sinal sem medo e sem dó. Tentou uma manobra que até na Líbia seria considerada como assédio sexual. Geison, atônito, recusou a investida. Resultado? Demissão sem justa causa.

 

Ele ficou furioso, quis chutar armários e destruir arquivos. Mas de nada adiantaria tamanha raiva e indignação. A ninfomaníaca corpulenta, recém rejeitada, jamais mudaria sua decisão... Queima de carma? Obviamente não. Apenas uma mulher desesperada, em busca de uma vítima para sua alcova...

 

Desempregado, desatinado e deprimido, Geison foi resgatado por seus amigos, que o convenceram a afogar as mágoas em um bar, acompanhado de litros de destilados etílicos. E quando tudo o mais tinha dado errado, eis que a figura deslumbrante de uma loiraça apareceu em sua frente. Ela olhou para ele, balançou o cabelo e deu uma piscadinha... Maior bandeira impossível...

 

Uma noite com magnânima deusa certamente apagaria quaisquer vestígios das desgraças vividas ao longo do fatídico dia. Olhou no relógio, que marcava 23:37 hs. Ainda era sexta. Partiu para o ataque. Não poderia perder nenhum minuto sequer. Conversa daqui, cabelo de lá e rapidamente ele voltou para a mesa de seus amigos, cabisbaixo e desapontado. A loiraça, na verdade, se chamava Percival.

 

Diante de tanto show de horror, Geison finalmente se convenceu da sina de azar da sexta-feira 13. Foi vencido pelos fatos. Depois, esperou a chegada da meia-noite. Quando sábado 14 despontou no horizonte, ele respirou aliviado...

  Maria Rita Barbi já penou em sexta-feira 13 e escreve no 'Quebrando o Salto' geralmente às segundas-feiras.



Escrito por Maria Rita Barbi às 22h38
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